3 notas sobre a morte de David Bowie

O que eu trouxe na bagagem da Colômbia

A(s) pergunta(s) que eu não fiz para Steve Aoki

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11 de jan. de 2016

Starman


David Bowie morreu e eu passei o dia inteiro com três coisas na minha cabeça:

1) Estranheza é o sentimento mais forte pra mim neste momento 
Surpresos todos nós estamos, pesarosos também. Mas ainda tenho que lidar com o estranhamento porque Bowie parecia uma figura muito próxima nos últimos dias - o que por si só já é estranho. Eu passei a última semana de 2015 lendo O Homem Que Vendeu o Mundo - David Bowie e os anos 1970, uma análise exploratória super profundo e detalhada que Peter Doggett faz da obra de Bowie na década de 1970, período em que ele dominou a arte de surpreender o mundo (curioso que passei os últimos dias de 2014 também lendo um livro sobre Bowie, Dangerous Glitter - Como David Bowie, Lou Reed e Iggy Pop Foram ao Inferno e Salvaram o Rock´n´roll, de Dave Thompson.

É um calhamaço de quase 600 páginas e eu tinha mais de 400 para finalizar a leitura que eu havia interrompido lá pra agosto. Devorei umas 100 páginas num dia, umas 50 em outro, 80 em outro, e nesse ritmo voraz acabei me adensando no universo "bowiano". Ao fim, parecia que eu tinha conhecido Bowie de perto e batido alguns papos com ele. O lançamento de "Blackstar" alguns dias depois, o aniversário e alguns documentários que vi na TV por conta da comemoração dos seus 69 anos só reforçaram essa sensação de presença de Bowie em minha vida.

Ele parecia tão próximo nesses últimos dias (justamente nesses últimos dias!) e, no mesmo instante em que estava aqui, já não estava mais.

2) A internet está certa
Horas depois da notícia da morte de Bowie, começaram a pipocar na internet textos que analisam como seu último disco era, na verdade, um anúncio sobre sua morte. As simbologias em torno do nome ("Blackstar"), do single ("Lazarus", o personagem bíblico que morreu e foi ressuscitado por Jesus, as menções ao paraíso na letra) e do clipe do single em questão (com Bowie em um leito de hospital) foram logo decifradas. Poderia ser mais uma das pirações conspiratórias dessa terra sem lei chamada internet, mas desta vez não há motivos para o ser.

O que Bowie fez de melhor não foi criar uma escola musical ou revolucionar um gênero, apesar dos bons hits, bons discos e a influência em gerações de músicas posteriores. A música foi o principal veículo que ele encontrou para expressar suas intenções artísticas e criativas, mas no fim das contas ele foi um performer e sua grande maestria foi usar carreira, palco e seus inúmeros personagens como um laboratório de testes sobre o que é ser um artista, um performer e sobre como é possível construir, desconstruir e manipular tudo isso.

Se até então Ziggy Stardust e os Spiders from Mars eram o melhor exemplo disso, as interpretações em torno da simbologia de "Blackstar" e do single "Lazarus" (letra e vídeo) indicam que temos agora uma amostra inimaginável e ainda mais emblemática dos happenings que só Bowie soube produzir.

3) Não adianta querer fazer textão sobre Bowie
Quando se tem Jon Pareles para condensar em um único parágrafo toda a significância da existência artística de Bowie, talvez o melhor a fazer seja apenas ler, reler e tresler o trecho do texto em questão. E também agradecer o fato de que há sempre alguém muito mais habilidoso em seu ofício para expressar e dar sentido àquilo que as nossas limitações nossas nos impedem de fazer.

"David Bowie, o compositor infinitamente mutante e ferozmente vanguardista que ensinou gerações de músicos o poder do drama, das imagens e personas, morreu no domingo, dois dias após seu aniversário de 69 anos."

Esta é uma tradução livre do obituário que o sempre brilhante Pareles escreveu para o New York Times. Nos regimentos internos do jornalão norte-americano, o primeiro parágrafo do obituário, chamado "cláusula quem", deve resumir com riqueza de detalhes a vida da personalidade citada.


PS: Meu agradecimento ao Nirvana, que regravou "The Man Who Sold the World" em seu acústico e, assim, me apresentou David Bowie.

30 de mai. de 2015

PRE-PA-RA que é hora do show das poderosas

Um abraço apertado cheio de gratidão em quem teve a ideia de colocar no ar um programa como Lucky Ladies Brasil, o reality show que estreou na Fox Life na última segunda (25). Tendo Tati Quebra Barraco como chefona-poderosa-mentora-mor, o programa reúne MC Carol, Mary Silvestre, Karol Ka, MC Sabrina e Mulher Filé em uma cobertura super ostentação com vista para a praia de Copacabana. Sob orientação de Tati e do produtor musical Rafael Ramos, as moças vão ser preparadas para se apresentarem em um mega show ao lado de sua mentora ao final do programa.

Em uma tacada só, ficamos livres:

1) dos formatos engessados dos programas caça-talentos que pipocam na TV aberta
2) dos candidatos a ~ídolos~ que confundem gritaria com técnica vocal, cheios de trejeitos copiados do pop americano e muito carentes de personalidade, espontaneidade e presença de palco
3) dos jurados inexpressivos, e que só despertam algum tipo de reação no público quando são muito irritantes (pense na Milk da Bahia)

Em troca, Lucky Ladies nos deu:

1) um reality com uma cara bem própria. A Fox Life em sua versão hispânica tem seu Lucky Ladies também, mas ele mostra a vida das esposas de roqueiros famosos do México, claramente uma proposta bem diferente. E é claro que um programa que coloca figuras de personalidade voltadas para um objetivo comum, como é o caso do reality brasileiro, é muito mais propositivo e tem muito mais apelo
2) participantes que transbordam personalidade, mulheres com muita história pra contar, fortes, empoderadas e diferentes entre si no comportamento, na aparência e na carreira construída no funk até aqui
3) uma mentora igualmente de personalidade transbordante, forte, empoderada que vai falar o que for necessário sem meias-palavras

De bônus, o programa ainda vai atacar em outras duas frentes: mostrar as histórias de vida das cantoras, como boas personagens que são e ainda vai colocar o funk em discussão. Ficou claro já no primeiro episódio que há uma tensão muito grande no que diz respeito à autenticidade e legitimidade de uma funkeira (ex-miss, com origem longe das comunidades, Mary Silvestre quer provar que também tem o direito de fazer funk) e sobre como deve se pautar seu trabalho (Mulher Filé explora muito o próprio corpo. Tati Quebra Barraco já adiantou que ela precisa cantar mais e dançar menos. MC Sabrina se incomoda com o fato de essa postura perpetuar a ideia de que brasileira é só bunda).

Ou seja, vai mostrar que tem pessoas muito interessantes fazendo funk e levando a coisa toda a sério, como a indústria da música exige de qualquer outro artista que quer se projetar. Pra você que ainda faz cara de nojinho pro funk, essa é uma boa deixa pra mudar.

Lucky Ladies vai ao ar na Fox Life às segundas-feiras, às 22h30.

26 de nov. de 2014

Vem cá que eu vou te explicar a teoria da matemática McCartneyana

Quem viu Paul McCartney em Belo Horizonte no ano passado e não conseguiu repetir a dose no retorno do beatle ao Brasil neste mês pode ficar tranquilo. Com a exceção da ausência do "uai" em seu palavreado e da inclusão de músicas do seu mais recente álbum "New", lançado após o show no Mineirão, não houve quase nada de diferente no show que o músico fez no Allianz Parque, em São Paulo, nessa terça (24).

McCartney é a constante da música pop que permanece inalterada há cinco décadas mesmo com o surgimento de novas fórmulas de sucesso e de se fazer música. Em sua equação que faz de seus shows elementos invariáveis, há precisão que ameaça ser burocrática, mas uma combinação de elementos que indica conhecimento e domínio de gênio sobre a matéria.

A frase "nesta noite vou falar um pouquinho de português" é dita desde 2010 aqui no Brasil logo antes de "All My Loving", sempre a terceira música da noite, e surpreende mais quem a ouve na boca do beatle pela primeira vez (Paul veio ao Brasil em todos os anos desde 2010 e já soma 16 shows no período, em quatro regiões - apenas o norte ainda não recebeu o músico).

Por outro lado, mesmo repetitivas, não perdem o impacto a explosão de emoção na passagem do solo de ukelele para as guitarras em "Something", a sequência quase épica de clássicos em "Live and Let Die"/"Let it Be"/"Hey Jude" ou o dedilhado de violão em "Yesterday".  

As variáveis ficam por conta do que acontece fora do domínio do Sir. Na noite dessa terça, em São Paulo, ficaram a cargo da chuva incessante antes e durante o show, do som mal equalizado em alguns momentos e de uma falha repentina em um dos telões, que ficou totalmente apagado por alguns segundos.

E se Paul é uma constante, assim também o são seus efeitos sobre o público. Turnê após turnê, repetem-se as mesmas cenas: pais, filhos e netos unindo três gerações na plateia, estádios lotados cantando clássicos do século XX em coro, elogios à sua boa forma do alto de seus 72 anos e ao seu carisma.

Difícil distinguir quem reage assim porque acabou de descobrir a fórmula de quem reage dessa forma porque já a conhece e a compreende. Em ambos os casos, o resultado é um só: é uma fórmula ainda incontestável na ciência do pop.

*Originalmente publicado no portal O TEMPO.

9 de jun. de 2014

Sim, dá para amar Josh Homme cada vez mais

Eu sei, a simples existência de Josh Homme já traz algumas centenas de motivos para amá-lo loucamente. Mas o frontman mais macho alfa da história adicionou mais uma razão à lista neste fim de semana. Durante o show de seu Queens of the Stone Age no Rock am Ring, festival alemão realizado na cidade de Nuremberg, Josh interrompeu a introdução de "A Song for the Deaf" para dar uma bronca nos seguranças do evento que impediam o pessoal da plateia de subir nos ombros dos outros, aquele recurso básico que muita gente usa pra ver um pouquinho melhor o palco. Em um ímpeto lindo de desobediência civil, Josh desautorizou a segurança e falou para o pessoal fazer o que bem entendesse.

Não sabia que isso era prática em festivais gringos, mas quem frequenta festivais aqui já deve ter visto cena semelhante quando alguém do público é colocado sobre os ombros de outra pessoa. Imediatamente os seguranças pedem que a pessoa desça. A desculpa, segundo corre por aí, é que isso atrapalha a visão de quem está atrás. Sim, atrapalha. Mas, pohãn, ninguém fica o show inteiro nos ombros de outra pessoa. Quando muito, uma musiquinha só. Que mal há?

Com tantas câmeras impunemente sendo levantadas em shows, igualmente atrapalhando a visão dos outros, mas orincipalmente alienando o dono da câmera em questão da experiência ao vivo, um gesto que te integra ao espetáculo não deveria ser tolhido. De maneira muito menos rebuscada e muito mais deliciosamente badass, o Ginger Elvis resumiu a ideia:

"Você não tem que descer do ombro desse cara. Vocês podem subir nos ombros dos outros, você podem curtir, vocês podem fazer o que quiserem. Não escutem a porra desse cara aqui. Subam nos ombros dos outros, enlouqueçam. Essa noite é de vocês, porra. Não deixem esses filhos da puta dizerem o que vocês devem fazer. Fodam-se esses caras"

Hero.

No vídeo abaixo, que traz o show do QOTSA completo em alta qualidade, a sequência começa na altura do minuto 58.


4 de jun. de 2014

Eles são bons de palco, são chiques, mas estão ficando caros

Se o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand foi o estopim para a Primeira Guerra Mundial, o preço dos ingressos para ver aqui no Brasil outro Franz Ferdinand, aquela banda mezzo-escocesa/mezzo-brasileira, poderia servir de estopim para uma micro Terceira Guerra Mundial.

A banda se apresenta no Vivo Rio, no dia 2 de outubro, com entradas que variam entre R$ 360 e R$ 600, valores muito acima dos cobrados nas 4564589 passagens anteriores dos escoceses pelo Brasil. A propósito, tanta frequência assim (com vindas duas vezes em 2006, além de turnês em 2009, 2010, 2012 e 2013) basicamente sempre nos mesmos lugares (RJ e SP) poderia resultar em preços mais sensatos, já que o quarteto não é tão mais novidade assim (mas não deixa de ser uma das minhas bandas preferidas da safra pós-Strokes para todo o sempre, amém).

Na estreia da banda por aqui, em 2006, com shows primeiro na abertura do show do U2 no Morumbi, no finado Motomix, ambos em São Paulo, e na noite dita histórica no Circo Voador, no Rio, a média de preços dos ingressos ficou em R$ 196. Em 2009, o show concorridíssimo na The Week, em São Paulo, custou R$ 260 para cada um dos apenas 500 fãs que tiveram acesso aos ingressos. Em 2010, a média de preços na turnê tripla (que incluiu RJ, SP e POA) ficou em R$ 176. Em 2012, vimos o Franz de graça, com direito a tumulto da PM, no Parque da Independência, em São Paulo. No ano passado, entre o Lollapalooza e um show no Recife, a média foi de R$ 275 (no Lolla, pagava-se R$ 350 para ver o Franz e mais uma boa dezena de bandas). Até que chegamos a uma média de R$ 446 para os shows do Rio, neste ano. Todos os valores consideram os preços de entrada inteira.

Uma inflação que teima em não ser controlada, uma crise no meio do caminho e um câmbio que nunca mais ficou abaixo dos R$ 2 justificam até certo ponto o aumento dos preços, mas é difícil conseguir justificativas para os R$ 360 reais cobrados por um lugar na frisa que dá visão parcial do palco do Vivo Rio. O mesmo valor também é cobrado para a pista. A maioria acaba pagando menos, pois se beneficia (honestamente ou não) da meia entrada, mas subir os valores da inteira é uma forma esperta e há muito tempo usada para tornar a meia entrada mais rentável.

Ah, e o nonsense dos preços cobrados neste show do Rio chega ao ponto de um tal camarote B custar R$ 20 a mais que a frisa com visão parcial. A frisa, que não te dá visão completa do palco, custa R$ 360 (mesmo valor da pista, inclusive) e o camarote, R$ 380. Mas como um lugar com visão parcial pode custar praticamente o mesmo que um camarote? Há também um camarote no estilo VIP do VIP por R$ 600. Já podem inaugurar o gênero indie ostentação.


Veja abaixo os valores de inteira para todos feitos pelo Franz Ferdinand no Brasil até agora.

Franz em 2006 (média R$ 196)
Na abertura do U2
R$ 160 (arquibancada)
R$ 200 (pista)
R$ 230 (cadeira superior)

No Circo Voador
R$ 100 no Circo Voador

No Motomix 
R$ 120

Franz em 2009
No The Week
R$ 260

Franz em 2010 (média R$ 176)
R$ 80 e R$ 120 em Porto Alegre
R$ 140 em São Paulo
R$ 180, R$ 240 e R$ 300 no Rio

Franz em 2012
De graça, no Parque da Independência

Franz em 2013 (média R$ 275)
No Recife
R$ 200 no Recife

No Lolla
R$ 350, o dia, ou R$ 495 o passaporte para os três dias

Franz em 2014 (média R$ 446)
R$ 360 pela pista, balcão ou frisa com visão parcial (!!), R$ 380 para camrote B e R$ 600 para camarote A, no Rio

19 de mai. de 2014

Candidatos à mitologia americana do futuro, Jay-Z e Beyoncé encarnam os mitos do passado Bonnie e Clyde

Bonnie e Clyde, dupla assaltantes que liderou um bando aterrorizante de roubo a bancos, comércios e postos de gasolina no início dos anos 1930, nos Estados Unidos, e cuja morte completa redondos 70 anos nesta semana, é um dos casais mais icônicos da cultura norte-americana. Povoam o imaginário yankee sustentados por um fascínio gerado pela mistura de amor, poder e transgressão. Seduzem pela interpretação dúbia de mocinho e bandido que provocam: desrespeitavam a lei, mas atacavam instituições que levaram os Estados Unidos à bancarrota em 1929 - quase como uma versão em inglês de Lampião e Maria Bonita.

Poderosos que são, e cientes desses símbolos poderosos - ou talvez apenas conduzidos pelo poder que esses símbolos exercem sobre o seu imaginário enquanto norte-americanos, Beyoncé e Jay-Z brincam com fogo sem o menor pudor e encaram uma sugestiva releitura contemporânea do famoso casal no vídeo que promove sua nova turnê conjunta, "On The Run", que estreia nos Estados Unidos no mês que vem com muita pompa e roubo na bilheteria - com o perdão do trocadilho, tem gente por lá vendo como assalto os preços dos ingressos, que variam de US$ 300 a US$ 5 mil.

Tão poderosa quanto o casal que tem os únicos nomes da classe artística na lista das 100 pessoas mais poderosas da indústria musical hoje, a peça promocional, que já chegou estrondosa na internet em formato inédito para a simples divulgação de uma turnê, é um falso trailer de um falso filme chamado "Run". "Coming never" nos cinemas, junta "apenas" Sean Penn, Jake Gyllenhaal, Blake Lively e mais um punhado de gente de Hollywood para mostrar como Jay-Z, um gângster com muita ambição, envolve a amada Beyoncé em uma perigosa trama criminosa. O resto é tiro, porrada e bomba.

Dias depois de dizer que eram gente como a gente, com seus próprios casos de família, ao justificar a briga de Solange Knowles com Jay-Z em um elevador (o "Solangegate"), Beyoncé e o marido rapper lembram o mundo que não é bem assim com o lançamento de "Run". Com as armas que têm - popularidade, poder e carisma, tomam mais uma vez o mundo de assalto e usam um dos principais símbolos do folclore de seu país para mostrar que, assim como Bonnie e Clyde, têm um apelo irresistível e duradouro, seja lá quais forem seus fins. E com eles ninguém pode.





PS: Aparentemente predestinados a encarnar a versão moderna do mito de Bonnie e Clyde, Beyoncé e Jay-Z já haviam vivido a dupla na faixa "'03 Bonnie and Clyde" em faixa e clipe lançados pelo rapper em 2002, quando os dois estavam a um passo de formar um casal.






11 de abr. de 2014

Kim, Joan, St. Vincent e Lorde: elas são Kurt

Talvez você tenha notado que apenas mulheres - Kim Gordon, Joan Jett, Lorde e St. Vincent - ocuparam os vocais que um dia pertenceram a Kurt Cobain na cerimônia que incluiu o Nirvana no Rock n' Roll of Fame. Elas fizeram o papel do front man do Nirvana enquanto Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear ocuparam seus respectivos postos de baterista, baixista e guitarrista durante a execução de alguns dos principais singles do Nirvana durante a cerimônia. Talvez você não tenha notado. Talvez esse detalhe não tivesse um significado em outro contexto. Mas, nas circunstâncias da noite de ontem, tinha.

Kurt era um cara consciente da prevalência de estruturas machistas e patriarcais no mundo em que vivia. E não se sentia confortável com isso. Em seus diários, disse que "sabia que era diferente. Pensava que era gay ou algo do tipo porque eu não conseguia me identificar com os caras de jeito algum. Nenhum deles gostava de arte ou música. Eles só queriam lutar e transar. Foi há muitos tempo, mas isso me deu esse ódio real pelo macho americano médio".

Em ocasiões diversas, demonstrou seu incômodo diante do sexismo. No encarte de "Incesticide", disse que não queria sexistas (e também racistas ou homofóbicos) em meio ao público do Nirvana. "Se algum de vocês odeia homossexuais, pessoas de cor diferente da sua ou mulheres, faça-nos um favor: deixe a gente em paz, porra. Não apareça em nossos shows nem compre nossos discos". Também eu seu diário, concluiu que "todos os 'ismos' se alimentam um do outro, mas no topo da cadeia alimentar ainda está o homem macho, forte, branco e corporativo. (...) Eu ainda acho que, para expandir em todos os outros ismos, o sexismo tem de ser completamente implodido".

Kurt namorou Toby Vail, ativista feminista e integrante do Go Team e do Bikini Kill, duas bandas da cena riot grrl. Escreveu "Rape Me" e "Polly", duas músicas que ele afirmava ser anti-estupro, apesar de nem todo mundo ter interpretado corretamente a primeira e da segunda não ser tão explícita quanto ao tema. Enxergou em Axl Rose um antagonista, talvez porque Rose integrasse a grande concorrente do Nirvana naquele início de anos 1990, talvez por treta típica de bastidores do rock, mas certamente porque identificava no comportamento do vocalista do Guns n' Roses e em sua música traços de sexismo e homofobia.

Por isso, e acho que só por isso, a inclusão do Nirvana no Rock n' Roll Hall of Fame, essa instituição parte careta, parte tiozona, parte chapa branca, tenha escapado das garras da vergonha alheia (apesar do momento piegas de Courtney e Dave Grohl se abraçando e encenando a dupla BFF). O Hall da Fama, com todos os adjetivos da frase anterior, vai na contramão da origem transgressora do rock. E o rock, apesar da natureza transgressora, nunca foi um terreno completamente livre do viés sexista que Kurt tanto rejeitava. Mesmo que de maneira sutil e indireta, Kim, Joan, St. Vincent e Lorde no lugar de Kurt (será de quem foi a ideia?) deram na noite de ontem o recado que Kurt insistiu em dar em seus 27 anos de vida e que nunca esteve tão na ordem do dia. Pena que quase ninguém captou a mensagem.

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Na TV norte-americana, a cerimônia de indução do Nirvana ao Hall da Fama - com as apresentações das moças à frente da banda - será exibida no dia 31 de maio, na HBO. Até as imagens oficiais caírem na rede para o mundo inteiro ver, dá para acompanhar boa parte da festa graças aos vídeos amadores dos convidados.






8 de abr. de 2014

Sonhei que ainda estava no show do Arcade Fire. "Wake up!"
Acordei no meio da madrugada de segunda-feira achando que estava no show do Arcade Fire, que encerrou o Lollapalooza Brasil no domingo (6). Levou só alguns segundos pra eu perceber que estava na cama. E só mais outros poucos segundos pra sacar que este era o primeiro sintoma daquilo que chamo de depressão pós-show. É aquela sensação de vazio, aquela ressaca afetiva e emocional que costuma atacar depois de uma boa experiência ao vivo.

Após festivais, o quadro tende a ser mais agudo. No caso do Lolla, especificamente, monta-se aquele parque de diversões pra gente grande, com pipoca, picolé, roda gigante, pista de patinação AND bebida, caras gatinhos e uma sequência de shows que você só não acompanha de forma plena porque eles desafiam as leis do tempo (intervalos curtíssimos entre um e outro) e do espaço (distância nível maratona com obstáculos humanos e geográficos entre os palcos espalhados por Interlagos). É como se fosse uma gincana: divirta-se o máximo que puder porque tem hora pra acabar. E quando acaba você sente saudade do que aproveitou e frustração pelo que não deu pra aproveitar. Pimba! É a tal da depressão pös-show dando as caras.

Passa rápido, aviso. Dura até a primeira treta no trabalho, o trânsito ruim ou a conta pra pagar que vão cruzar seu caminho no dia seguinte - pequenos dramas reais do dia a dia. Mas o diagnóstico é quase tão certo quanto os perrengues que você vai arriscar passar pra viver tudo outra vez no ano seguinte.

4 de abr. de 2014

Pra quem Kurt apontaria a arma se voltasse à vida hoje?

Quando Kurt Cobain se matou, há vinte anos, estava assolado por uma depressão que lhe tirava o entusiasmo de tudo, inclusive da fama e do reconhecimento que havia conquistado com o Nirvana. Se, duas décadas depois, ele tivesse a oportunidade de ressuscitar e mudar os acontecimentos, talvez chegasse a cogitar pôr fim à banda ou fazer música ruim para cair no ostracismo e esquecimento. Talvez assim eliminasse o tratamento leviano que sua memória e legado vem sofrendo por parte de quem se dispõe a lembrar sua história - comportamento que ganhou mais impulso com a proximidade de seu aniversário de morte, neste sábado (5).

Começou com a polícia de Seattle revelando dezenas de fotos da cena do suicídio de Cobain no último mês de março. Fotos que não traziam nenhuma informação nova. Óculos, seringas, cigarro, notas de dinheiro que não dizem nada senão uma sacada esperta para alimentar o interesse mórbido de muita gente.

Courtney Love, eterna viúva, não ficou de fora e abriu a boca para a imprensa nas vésperas dos vinte anos de morte de Kurt, nesta semana, a fim de anunciar suas ideias para administrar o legado do músico. Disse que pretende fazer um musical sobre a vida do pai de sua filha, Frances. Está apelando para um formato de homenagem que, me parece, se distancia muito do universo no qual o Nirvana, Kurt, e todo o legado grunge orbitou.

Correndo por fora, temos forçações de barra, como o escritor Charles Cross, autor do livro "Here We Are Now: The Legacy of Kurt Cobain and Nirvana", que espertamente descobriu, também às vésperas desse aniversário de morte, uma suposta pista para a origem da letra de "Come As You Are" - estaria ligada, segundo ele, a um anúncio de um hotel de Aberdeen, cidade natal do músico, datado dos anos 1940.

Em meio a tantas lembranças por caminhos forçados, talvez esse pessoal que anda por aí vestindo camiseta do Nirvana, só porque está à venda na vitrine da loja ou no look do dia da blogueira, esteja fazendo, por vias tortas e inconscientes, um serviço mais honesto à memória de Kurt e do Nirvana, ao tranasformarem o nome e o símbolo da banda em ícones perto de serem tão identificáveis quanto a gigantesca boca que simboliza os Rolling Stones. Por não terem ideia do peso dos símbolos que estão evocando, por ignorarem a história, não têm interesses, não manipulam, apenas perpetuam uma imagem.

17 de mar. de 2014

O Metallica trabalhando à toa para produzir música nova que a maioria não quer ouvir

Conforme prometido quando anunciou a turnê na América do Sul, o Metallica vai apresentar uma música nova no lado de cá do Equador. A banda divulgou na semana passada imagens dos trabalhos em estúdio durante a produção da composição inédita. Mas James e cia. talvez não precisassem se dar ao trabalho. A julgar pela decisão do público, que teve a oportunidade de escolher, dentre todas as músicas já feitas pelo Metallica, quais a banda tocará no show do próximo dia 22, no Morumbi, a maioria não está com vontade de ouvir coisa nova.

Das 17 músicas mais votadas pelos fãs brasileiros, 15 foram compostas até 1991 (veja abaixo). A exceção, de fato, ao Metallica pós-"Black Album" (o disco lançado neste limite temporal (in)conscientemente criado pelos fãs) é "Fuel", presente em "Reload", de 1997. Há também "Whiskey in the Jar", gravada em 1998 para o disco "Garage Inc.", mas, além de não ser de autoria do Metallica, é uma música mais velha ainda que os sucessos que a banda produziu entre 1983 e 1991 - a música é uma tradicional canção irlandesa e já foi gravada por muita gente do rock, sendo uma das principais versões a do Thin Lizzy, feita em 1993. O resultado das votações no Equador, Chile, Argentina, Paraguai, por onde a banda também vai passar, e por países europeus difere quase nada do resultado da enquete brasileira. Quando há alguma música diferente, ela também é pré-1991 (caso de "Whiplash", de 1983, e "Blackened", de 1989, recorrentes nos resultados dos demais países sul-americanos).

É claro que toda banda tem seu auge criativo, seguido por momentos não tão inspirados, e é por isso que, por exemplo, o público quer ouvir cinco músicas do "Black Album". Ou que "Master of Puppets", do disco homônimo de 1986, e "One", de "...And Justice For All", de 1989, são a primeira e a segunda mais votadas em todas as enquetes da América do Sul e nas votações que foram abertas na Europa até o momento. É um consenso muito claro e óbvio que o melhor período do Metallica se concentra nesse espaço de tempo. E é claro que um setlist não pode virar as costas pra isso. Mas é curioso perceber que a maioria do público simplesmente ignora o que a banda fez nos últimos 23 anos. Será que é tão ruim assim? (Não acho que é. Sério que "Hero of the Day" não significa nada pra vocês que aprenderam a ouvir Metallica nos anos 1990 por causa da MTV?). E se for tão ruim assim, por que continuar acompanhando a banda se você não está disposto a abrir os ouvidos para o que ela tem a te oferecer enquanto está em atividade?

O fato de o Metallica ser uma banda que ajudou a levar o heavy metal para o mainstream e, com isso, conseguiu atrair gente acostumada a ouvir outros gêneros musicais pode ser apontado por alguém como justificativa para a prevalência das músicas mais populares em detrimento de outras mais, digamos, alternativas na votação. Mas não acho que fãs ocasionais estejam mais interessados em escolher o que a banda toca do que fãs que são profundos conhecedores da discografia do grupo. Seja lá quem votou, houve uma opção acomodada pelo mais do mesmo (o repertório escolhido é parecidíssimo com os dos shows mais recentes da banda aqui, no Rock in Rio em 2011 e 2013) num raríssimo momento em que o artista deixa os fãs escolherem o que ele vai apresentar.

Vira o disco, alguém diria pra esse pessoal. Mas parece que ninguém quer virar porque fez a agulha propositalmente arranhar a última faixa do "Black Album", que vai ficar se repetindo eternamente na vitrola do tempo. Por isso mesmo, não vai dar para aceitar choradeira quando o Metallica decidir terminar, porque isso já aconteceu há 23 anos para os ouvidos de muita gente, que só não percebeu porque está dormindo profundamente por causa do Sandman.

Veja abaixo as escolhas dos fãs segundo o álbum e a lista de músicas que estarão no show conforme porcentagem de votos. 

Ouça, mais abaixo, a nova música do Metallica, "The Lords of Summer", que foi apresentada pela primeira vez no domingo (16), em Bogotá, na Colômbia.





Editado às 10h21 de 17/03/2014.

9 de mar. de 2014

Em formato de embalagem de Toblerone, o  player de música digital (que não é MP3) do Neil Young vai ser apresentado na terça e estará à venda a partir de quinta

Neil Young vai contar pra gente nesta terça (11), em palestra no South by Southwest, qual é a real do seu Pono, novo formato de arquivos de áudio, reprodutor (PonoPlayer) e serviço de música digital (PonoMusic) que promete música em alta resolução no qual ele vem trabalhando há aproximadamente dois anos. Tudo isso pra ver se convence a moçada a comprar o PonoPlayer, a parte física do sistema, que vai estar à venda a partir de quinta (15) no Kickstarter a preço promocional - embora o valor do desconto não tenha sido informado, é oficial que o aparelho chegará ao mercado custando US$ 400.

Um purista do som, Neil Young quer salvar os ouvidos das novas gerações do que ele considera ser uma baixa qualidade do áudio oferecido nos serviços de música digital como iTunes e Spotify. Em entrevista feita quando o projeto ainda se encontrava em fase preliminar, Young disse que arquivos de MP3 chegam a ter apenas 5% dos dados contidos em uma gravação original. E o que ele quer (e está prometendo) é recuperar essa qualidade perdida.

Young recrutou a Ayre, empresa especializada em tecnologia de áudio, para desenvolver um formato de áudio que permitisse aos ouvintes ter acesso às gravações com qualidade de estúdio e a maior fidelidade de áudio possível. Estima-se que os arquivos terão uma taxa de bits de 320 kbps (kilobit por segundo). Este é o valor máximo suportado atualmente pelo MP3, mas, em média, estes arquivos vêm com uma taxa de 128 kbps. A taxa de bits indica a quantidade de dados guardada por unidade de tempo.

Na prática, o Pono vai funcionar assim: o PonoPlayer vai vir com memória de 128 GB, o suficiente para armazenar entre 1 mil e 2 mil álbuns, segundo o fabricante (daí a estimativa de cada arquivo ter uma taxa de bits de 320 kbps). Em formato de embalagem de Toblerone, o aparelho tem tela touch screen, suporta cartão de memória e vai custar US$ 400 (nos Estados Unidos, o iPod Classic, com 160 GB, custa US$ 260). A PonoMusic é a loja online onde será possível fazer o download de músicas e discos do catálogo de gravadoras grandes e independentes por valores ainda não informados. Fones de ouvido customizados para o PonoPlayer também estarão à venda na loja. Um aplicativo para desktop vai fazer a ponte entre os dois anteriores, permitindo o download e a sincronização de música não só do Pono, mas também de "outros serviços de música de alta resolução", segundo o comunicado oficial sobre o lançamento do produto.

Muito poético, Neil Young disse que ouvir o Pono é como "ver os primeiros sinais da luz do dia logo depois de sair de uma sala de cinema em um dia ensolarado". Eu, que só vou ao cinema no fim da tarde ou à noite (quando vou, porque às vezes vejo os filmes do meu computador), e que passei a infância ouvindo vinil e fitas K7, comecei a adolescência ouvindo CD e sigo firme no MP3 desde a era Napster, aprendi a não me apegar a formatos. Quero mesmo o som entrando pelos meus ouvidos da maneira mais fácil e imediata possível. E acho que meus ouvidos, nesse meio tempo, desaprenderam a diferenciar contrastes em ondas sonoras, bits ou que o for - a não ser que sejam diferenças muito óbvias. Suspeito que tem toda uma geração pós-Napster mais radical ainda nesse sentido. Ou seja, Neil Young tem um grande desafio pela frente. Mas, como é um senhor muito do distinto, merece pelo menos nossa atenção.

28 de fev. de 2014

Quem toca o quê no Kiss? Quem faz parte do Kiss? Os carnavalescos não sabem, a banda não sabe... 


Tem Kiss no samba. A banda mascarada está representada em um dos carros alegóricos da escola de samba Dragões da Real, que apresenta na madrugada deste sábado no Anhembi, em São Paulo, o enredo "Um Museu de Grandes Novidades", sobre ícones das décadas de 1970 e 1980.

Mas, oh! wait. Os bonecos do Kiss foram criados sob certa ~licença poética~, pois alguns detalhes não correspondem exatamente à realidade.

1 - O Cat Man (hoje Eric Singer, no passado Peter Criss) não toca guitarra, e sim bateria



2 - Paul Stanley não tem olhos verdes



2½ - Genne Simons não faz a mão chifrada com a palma virada pra dentro



Por que isso não importa?
Nesta semana, o Kiss informou em comunicado que não vai se apresentar na cerimônia que vai incluir a banda no Hall da Fama do Rock por divergências na formação da banda - membros antigos e novos não chegaram a um consenso sobre quem deveria estar na performance. Agora, pensa: se o Kiss não consegue decidir quem de fato é o Kiss, por que os carnavalescos deveriam acertar todos os detalhes sobre a banda? É Carnaval, vamos fantasiar.    

19 de fev. de 2014

Graças ao Brit Awards, a gente sabe agora que as moças do Haim têm família em Curitiba

O propósito era celebrar a música britânica, as principais atrações da noite foram emprestadas dos norte-americanos (Beyoncé, Pharrell, Bruno Mars e Katy Perry), mas o que teve de mais surpreendente no Brit Awards disse respeito ao Brasil - afinal, já dava pra sacar que ninguém ousaria negar o prêmio de melhor artista masculino a Bowie, de volta pra pista depois de dez anos; e o de melhor disco ao "AM", do Arctic Monkeys, em longo processo de canonização em sua terra natal.

Transmitida pelo Multishow com delay de cerca de uma hora, a cerimônia foi precedida, na TV brasileira, por uma mini cobertura do tapete vermelho feita por Titi Muller. O bate-papo com alguns dos convidados da noite teve pouco espaço - só 15 minutos - e foi transmitido gravado, o que tira um pouco o charme do tapete vermelho, mas foi nesse pequeno intervalo de tempo que vieram à tona os fatos mais interessantes da noite, todos eles ligados ao nosso país. A saber:

As irmãs do Haim têm família no Brasil. Mais precisamente em Curitiba. Pena que Titi não prolongou mais a conversa pra gente saber se esses parentes são americanos ou brasileiros ou se as garotas já deram umas voltinhas pela capital paranaense para tomar leiTE quenTE.

Boy George tem a intenção de fazer uma turnê sul-americana no segundo semestre. Ele foi ligeiramente vago ao responder Titi sobre seus planos para o Brasil, mas mencionou a ideia de dar uma voltinha no lado de cá do Equador "later this year".

Philip Treacy adora turistar no Brasil. O chapeleiro maluco dos britânicos, designer responsável por conceber chapéus para grifes (Chanel), para o cinema (Harry Potter), para celebridades (Lady Gaga e Sarah Jessica Parker) e para a realeza (inclusive muitos dos usados no casamento de Kate e William, como aquele inesquecivelmente ridículo usado pela princesa Beatrice) mencionou Ubatuba como uma de suas praias preferidas. Treacy desenhou a estatueta do Brit entregue aos vencedores este ano.

Fora isso, tivemos:

David Bowie criando um happening mesmo sem estar presente. Escolheu ser personificado por Kate Moss e, assim, pediu para a moça fantasiar-se com um dos figurinos usados nas turnês de Aladdin Sane e fazer o discurso de agradecimento pelo prêmio de melhor artista masculino.

Noel Gallagher sendo Noel Gallagher, abrindo a boca para despejar sinceridade ao explicar para o público porque Kate Moss aceitaria o prêmio de melhor artista masculino (apresentado por Gallagher) em nome de Bowie: "ele é cool demais pra essa merda toda". De fato, too damn cool.

Alex Turner sendo Alex Turner, com aquela nonchalance chapada que ele - e também o resto do Arctic Monkeys - demonstra nas premiações. A pose de desdém não desmontou mesmo quando ele resolveu, em discurso de agradecimento sério para seus padrões, filosofar sobre o ciclo de vida do rock. "Isso é o rock n' roll, ele simplesmente não vai embora. Talvez ele hiberne de tempos em tempos e afunde em um pântano (..). Mas ele está sempre por ali, em algum canto, pronto para retornar do lodo e romper o teto de vidro com uma aparência melhor do que nunca (...)". Talvez um jeitinho maroto de dizer que os próprios Monkeys encarnaram a etapa triunfante desse processo. A banda levou os prêmios de melhor grupo britânico e melhor disco, por "AM".

Pouco humor e muito protocolo numa cerimônia curta e grossa, sem as pieguices que se costuma ter nas premiações americanas, mas sem um pouquinho da fanfarronice que esses eventos precisam para ter mais apelo num aparelho de TV.

Veja todos os vencedores do Brit Awards aqui.



6 de fev. de 2014

Flea com carinha de quem falou demais

Depois de telespectadores notarem que o baixo de Flea estava desplugado durante a participação que o Red Hot Chili Peppers fez no show de Bruno Mars, no intervalo do Super Bowl, e de a internet fazer um rebuliço em cima da história, o músico resolveu prestar esclarecimentos. E acabou esclarecendo coisa demais.

Em texto publicado no site do Red Hot Chili Peppers, Flea disse que foi uma exigência da NFL (a National Football League) o uso de bases pré-gravadas para o baixo, a bateria e a guitarra (a banda fez uma gravação especial para ser usada na apresentação). Apenas os vocais estavam "liberados" para serem ao vivo. Não havia espaço para negociar algo diferente disso, ele afirmou. Segundo Flea explica, a exigência se justifica pelos poucos minutos que a organização do Super Bowl tem para preparar o palco para o show do intervalo. Com tão pouco tempo, há o risco de se cometer algum erro na organização dos equipamentos e arruinar o show, completa o baixista.

O que dá para inferir desta explicação? Se o pouco tempo para organizar toda parafernália necessária para o uso de instrumentos musicais ao vivo torna melhor o uso de bases pré-gravadas, e se o pouco tempo é sempre o mesmo (porque há uma regularidade pré-estabelecida na duração de competições esportivas e em seus respectivos intervalos, mais ainda em uma transmissão ao vivo de TV, onde tudo é rigidamente cronometrado), então o uso de bases pré-gravadas/playback (com exceção talvez dos vocais) acontece sempre, não é mesmo?  Então parem de pegar o Flea pra Cristo porque ele é um cara legal.

27 de jan. de 2014


A expressão diz: "eu já sabia"; o chapéu diz: "por essa vocês não esperavam"

O Grammy teve tudo aquilo que a gente esperava: o Daft Punk, turbinado pelo poder de midas do Pharrell, levando os principais prêmios da noite (disco do ano, gravação do ano e duo/grupo pop); a Lorde sendo justamente reconhecida (música do ano e artista pop solo); aquele monte de apresentação de artista country que a gente do lado de cá do Equador tem que engolir; e aquela sensação de que a transmissão nunca vai acabar.

Teve ainda Madonna, Queen Latifah, Macklemore e Ryan Lewis celebrando a união de 20 casais - gays e heteros - ao vivo sob a benção de "Same Love", um hino sobre respeito e aceitação; e o Paul recebendo um agrado a mais da academia (afinal ele era o homenageado da noite por conta dos 50 anos da chegada dos Beatles aos Estados Unidos) com o prêmio de melhor música de rock por "Cut Me Some Slack", colaboração com o Dave Grohl, o Kirst Novoselic e o Pat Smear, ou o chamado "Sirvana". Ah, e teve o Pharrell com um chapéu absurdo que disputou atenção com os capacetes do Daft Punk.

Mas teve um monte de coisa que também não aconteceu. Ficou faltando entregar os seguintes prêmios:

Prêmio Cilada, cilada, cilada...
Para: Lorde
Tanta expectativa e tanta moral pra chegar lá e fazer playback, sério?




Prêmio Joelma
Para: Taylor Swift
Ela bateu cabelo como se não houvesse amanhã enquanto cantava AND tocava piano. Muita classe.



Prêmio Paula Fernandes
Para: Kacey Musgraves
Uma vez por ano, exatamente no dia do Grammy, a gente fica sabendo da existência de alguns artistas country. A descoberta de 2014 foi essa moça que deve dividir o guarda-roupa ou o estilista com a Paula Fernandes.



Prêmio Samba do Criolo Doido
Para: Robin Ticke e Chicago
Um medley desconjuntado que foi progressivamente ribanceira abaixo até cair no buraco com os tiozinhos caindo de para-quedas numa versão insossa e caretinha de "Blurred Lines", que encerrou a performance.




Prêmio Bigger Than Jesus
Para: Daft Punk, Pharrell, Nile Rodgers e Stevie Wonder
Havia dois beatles na plateia e ainda Sean Lennon, quase um cosplay do pai (onde estava o Dhani pra fazer o cosplay do George?). A academia preferiu juntar apenas os dois originais e foi lindo ver Paulzão e Ringão tocando juntos uma música cuja letra remete à infância do Paul em Liverpool ("Queenie Eye"), mas o combo Daft Punk + Pharrell Williams + Nile Rodgers + Stevie Wonder era a melhor combinação de todos os tempos da noite passada. Tanto que a gente viu Paul e Ringo curtindo a performance ao vivo. E Yoko também, numa dancinha bem vida loka. E o Steven Tyler também. E a Beyoncé e a Taylor Swift. E a galera toda que estava ali, num momento lose yourself to dance, num momento freak out, fazendo o nosso nível de recalque crescer por não estar lá.



Prêmio O Amor e o Poder
Para: Beyoncé e Jay-Z
Eles foram eleitos pela Billboard os mais poderosos da indústria da música - os únicos artistas em uma lista de 100 nomes dominada por figurões de gravadoras e mega corporações, e foram designados para abrir a grande festa dessa mesma indústria. O casal Carter cumpriu seu papel, com Beyoncé usando mais um body poderoso e Jay-Z em uma silhueta poderosa, mais slim. A música, "Drunk in Love", nem era tão poderosa assim, parecia que não ia decolar nunca, mas deu uma arrancada quando o rapper subiu no palco para completar a metade que faltava do poder.




Prêmio Sou foda, sou sinistro, melhor que seu marido
Para: Josh Homme
Porque esse prêmio será sempre dele. E porque ver o único macho-alfa na face da terra (com Dave Grohl e Nine Inch Nails de brinde) é a única coisa que dá sentido ao Grammy e te segura até o fim da transmissão, pra lá das 2h30 da manhã na frente da TV, depois que Paul e Ringo e o Daft Punk com Pharrell, Nile Rodgers e Stevie Wonder se apresentaram.

Josh com cara de "o melhor sempre fica pro final"

17 de jun. de 2013

Bon Jovi (sem Sambora) sai da Espanha de bolso vazio, mas vai faturar no Brasil

Recentemente, o relações públicas do Bon Jovi informou que a banda abriu mão do cachê que receberia para se apresentar em Madri, no próximo dia 27. Jon Bon Jovi e companhia renunciaram ao pagamento a fim de baixar o preço dos ingressos e, assim, permitir que os fãs tivessem acesso facilitado ao show tendo em vista cenário de crise econômica e desemprego que atinge a Espanha desde 2008.

O que não foi divulgado é que, além de aliviar para o lado dos fãs, a banda também acabou aliviando para o lado dos produtores. Extenso artigo publicado neste mês pelo jornal El País disseca o atual estado da indústria de shows na Espanha, tão combalida como outros setores produtivos do país, em função da tal crise. Um representante da Live Nation ouvido pela reportagem admite que os produtores locais estão oferecendo cachês menores para os artistas em função de quedas nos lucros via venda de ingressos - provocada pelo aumento do IVA (imposto cobrado sobre bens e serviços) de 8% para 21%, desde agosto do ano passado, e por uma queda de mais de 42% na venda de ingressos. Com isso, diz a fonte, ninguém quer ir tocar na Espanha. No meio dessa história, o Bon Jovi acaba se convertendo num grupo de franciscanos.

Ou, talvez, a banda recupere aqui no Brasil, em setembro, no Rock in Rio e em show solo em São Paulo, o que deixou de ganhar na Espanha. Já há alguns anos, com a crise acima do Equador, o Brasil tem se tornado destino intere$$ante para atrações internacionais, coisa que os próprios produtores locais reconhecem. Em alguns casos, a disputa por um determinado artista entre produtoras se converte em leilão e o cachê vai às alturas - exemplo recente mais forte foi a vinda do Foo Fighters ao Lollapalooza, no ano passado. O lance inicial para o cachê era de R$1,5 milhão, mas foi fechado em R$5 milhões. Levou quem pagou mais. Houve episódios de encalhe de ingresso, como Lady Gaga e Madonna, mas ao que tudo indica uma combinação de fatores que não apenas de ordem econômica (shows voltados para públicos muito semelhantes, em datas muito próximas e em cidades com excesso de atrações internacionais) contribuíram para as baixas vendas.

Por enquanto, a despeito da economia crescendo em ritmo lento - mas crescendo - e da inflação insistindo em bater a casa dos 6%, o desembarque internacional dos aeroportos de Rio e São Paulo, principalmente, não dão sinais de que deixarão de receber gente de fora. Os ingressos do Rock in Rio se evaporaram, o Planeta Terra ressurgiu das cinzas, o Monsters of Rock está de volta depois de 15 anos sem ser realizado no país, São Paulo ganhará um novo festival em dezembro, o Black Sabbath está de malas prontas pra cá, Beyoncé também, em uma turnê que promete passear pelo Brasil (além de show no Rock in Rio, a cantora também pode passar por BH, Fortaleza e Brasília), depois de Paul McCartney ter feito o mesmo em maio (com abertura mundial de turnê em BH e inclusão de Goiânia e Fortaleza na rota). O eldorado por enquanto e ainda é aqui.

31 de mai. de 2013



Passei no teste. Todos os quase 200 versos de "Faroeste Caboclo" continuam intactos em minha memória, mesmo o hábito de ouvir Legião Urbana estando em algum lugar da minha vida nos tempos de 5ª série. Fui atrás da música motivada pelo revival provocado pela chegada aos cinemas do filme homônimo.

Se naqueles meados dos anos 1990 eu ouvia a música gravada a partir de uma rádio em fita K7 em clima de gincana, no intuito voraz de decorar os versos escritos à mão por uma amiga em algumas folhas arrancadas de seu caderno (era pré-Google, pré-internet, entende?), nesta semana ouvi a música em tom reflexivo, notando as nuances da melodia que acompanham a atmosfera dos episódios vividos por João do Santo Cristo em sua saga e fazendo paralelos com a realidade passada e presente do Brasil, percebendo noções de violência e justiça social que Renato Russo provavelmente tinha - coisas que a gente não faz quando tem 12 anos.

Ainda devo demorar alguns dias para ir ver o filme, para evitar a muvuca e filas longas típicas de filmes recém-estreados. Não vou com o espírito pseudo-crítico/analítico como este que marcou meu reencontro com a música e sim com aquele clima juvenil de oba oba e diversão pura da menina que tentava decorar a letra na década passada. Para quem é da geração MTV e, portanto, aprendeu a gostar de música vendo clipes, ver "Faroeste Caboclo" - que não tem clipe - se transubstanciar em imagem é receber o pagamento de uma dívida de anos.

Ok, sei que o filme não é uma reprodução à risca da música, tampouco um videoclipe tamanho família da mesma - o diretor René Sampaio já esclareceu isso em diversas entrevistas. Mas a inconsequência juvenil que permeia minha admiração e minha história com a música me obriga a ter menos exigência e picuinha crítica com o filme. This girl just wanna have fun.

21 de jan. de 2013

Elton John vem aí

Em anos mais recentes, começou a cair em desuso a ladainha segundo a qual BH está fora da rota de atrações internacionais que excursionam pelo Brasil. Ok, o volume de shows gringos que chegam até aqui ainda passa longe do que se vê em SP e no Rio (e até em Porto Alegre, recentemente), mas não dá para manter a mesma intensidade de reclamação de tempos passados depois de um ano em que Minas viu Morrissey, Robert Plant, Jon Anderson, Demi Lovato, Joe Cocker e Alanis, só para citar os que me ocorrem na memória agora (2010 e 2011 também renderiam uma lista se não longa, ao menos interessante, com Ringo Starr, Rihanna e Guns no meio). O que ainda nos falta, certamente, é ter acesso aos GRANDES show internacionais.

Impossível saber o que será de 2013, mas os primeiros sinais não desanimam. Até o momento, BH soma cinco shows gringos agendados, sendo quatro em março (abaixo), e, finalmente, o Mineirão entra novamente no jogo para disputar mega-shows que porventura passem pelo país. Quem puxa a fila é Elton John, no dia 9/3, e a Minas Arena, administradora do estádio, garante que pelo menos mais quatro apresentações estão para acontecer por lá este ano - produtores locais me afirmaram o mesmo nesta reportagem que fiz no fim de 2012. Dentre essas possibilidades, assegura a boatolândia, está um certo inglês de Liverpool que um dia tocou naquela banda que bagunçou o mundo nos anos 1960.

Só para refrescar a memória, o Mineirão recebeu shows internacionais pela última vez há sete anos, em 2006, quando o Black Eyed Peas e o New Order se apresentaram no extinto Pop Rock Brasil. Antes disso, tivemos Kiss, em 1983. Que o já histórico encalhe de ingressos de Lady Gaga e Madonna sirva para que produtores enxerguem público fora do eixo Rio-SP. Que essa pasmaceira, enfim, termine.

DJ Tiësto
2/02 (sábado), 16h. Entre R$160 e R$440. Expominas (Avenida Amazonas, 6030, Gameleira). www.centraldoseventos.com.br

Jonas Brothers
8/03 (sexta), 21h30. Entre R$220 e R$280. Chevrolet Hall (Avenida Nossa Senhora do Carmo, 230, Savassi). www.chevrolethall.com.br

Elton John
9/03 (sábado), 22h. Entre R$100 e R$700. Mineirão (Avenida Antônio Abrahão Caram, 1001). www.livepass.com.br

Ian Anderson
15/03 (sexta), 21h. Entre R$100 e R$300. Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1537). www.palaciodasartes.com.br

Tim Reynolds, guitarrista da Dave Matthews Band, também vem ao país e passa por BH em março, conforme antecipou José Norbert Flesch. Só falta definir datas e locais.

28 de dez. de 2012


O mundo não acabou, 2012 também não (quase), mas este blog só quer saber de 2013. Por isso, ao contrário dos anos anteriores, uma tentativa de retrospectiva (que fiz de alguma forma no Data Música (aqui e aqui) vai dar lugar a algumas perguntas que podem encontrar respostas no ano que em breve começará. São cinco, que entrarão no ar ao longo da semana. Voilá:

O Lolla BR virou um bicho papão?

5)O Lollapalooza vai engolir os outros festivais brasileiros?
Este ano o SWU foi cancelado e o Planeta Terra não vendeu tanto quanto em edições anteriores. Para 2013, não sabemos ainda o destino do primeiro e o segundo chegou a ser vítima de boato que profetizava seu fim - prontamente desmentido pela organização. Partidários da teoria da conspiração dizem que é tudo culpa do Lollapalooza, que faz a rapa das boas atrações logo no início do ano e não deixa tantas opções assim para quem vem depois na fila de festivais - Leo Ganem, CEO da produtora responsável pelo Lolla aqui deu força à teoria ao postar no Twitter:  "Já enterramos o SWU, agora vai o Planeta Terra". São cerca de 60 shows no festival de Perry Pharrel. Só se mostra inabalável diante da concorrência o Rock in Rio, cuja marca é sólida e suficientemente atrativa aos olhos do público, e chega a ser maior que qualquer atração que ele possa anunciar (vide a venda bem-sucedida de ingressos, esgotada em poucos minutos, mesmo com uns 10% dos nomes confirmados). A briga pode ainda ficar melhor com a chegada do Coachella ao país em 2014. O festival californiano tem pinta de gigantismo, assim como o Lolla. Mas isso é assunto para o fim do ano que vem.

27 de dez. de 2012

O mundo não acabou, 2012 também não (quase), mas este blog só quer saber de 2013. Por isso, ao contrário dos anos anteriores, uma tentativa de retrospectiva (que fiz de alguma forma no Data Música aqui e aqui) vai dar lugar a algumas perguntas que podem encontrar respostas no ano que em breve começará. São cinco, que entrarão no ar ao longo da semana. Voilá:

Encalhe de ingressos de Madonna e Gaga deixa lições

4)O encalhe de ingressos histórico de Madonna e Lady Gaga vai provocar alguma mudança na política de shows gringos no Brasil?
Elas são grandes, elas são divas. Mas as duas loiras do pop venderam (muito) menos que o esperado em suas turnês pelo Brasil e o fracasso de vendas virou notícia até fora do país. As tentativas de explicação foram muitas: ingressos caros, proximidade de datas de ambas as turnês, hiperconcentração de shows no eixo Rio-São Paulo, dimensionamento errôneo de público, repeteco de atração no caso de Madonna (que já tinha se apresentado no Rio e em São Paulo em outras duas turnês). O motivo real ninguém sabe ou, pelo menos, ninguém disse. Mas algumas hipóteses podem ser convertidas em lições e postas em prática a partir do próximo ano: praticar preços menos absurdos, com o suporte de uma nova lei da meia-entrada, levar shows para outras capitais (muitas das quais terão estádios novos em folha e bem estruturado para o caso de apresentações deste porte) e buscar espaços de médio porte, à semelhança de muitas arenas nos Estados Unidos. Vamos ver se a mina de ouro que virou o Brasil para shows internacionais vai encontrar novas maneiras de ser explorada.
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