3 notas sobre a morte de David Bowie

O que eu trouxe na bagagem da Colômbia

A(s) pergunta(s) que eu não fiz para Steve Aoki

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20 de abr. de 2015

Moço, você é feminista

Era o segundo dia de Lollapalooza Brasil, domingo, 29 de março. No meio da tarde, quando começava a garoar no Autódromo de Interlagos e o Interpol subia ao palco à luz do dia, num contraste incômodo com a natureza dark light de sua música, recebi a notícia de que teria cinco minutos de entrevista com o DJ Steve Aoki. Seria às 20h20, 25 minutos antes de seu show.

Me preparei para a entrevista e fui ver o que ainda restava do show do Interpol. Bolei cinco perguntas, ainda que a recomendação tenha sido que eu fizesse apenas três. Algumas eram curinga, para render assunto no caso dele ser um cara de poucas palavras. Tinha as obrigatórias - sobre a segunda parte de "Neon Future", álbum que será lançado no próximo 12 de maio. E tinha uma que eu faria a qualquer custo, e tinha pensado em engatar logo depois que ele comentasse algo sobre o novo trabalho.

Pesquisando, descobri que Steve tem uma graduação em estudos de gênero. Isso é lindo. Fiz disciplinas eletivas sobre o assunto no curso de Antropologia da UFMG, e uma das queixas do meu professor e dos autores que a gente lia era justamente em relação ao baixo envolvimento dos homens na discussão acadêmica sobre o tema (e quem dera se o problema fosse só dentro da academia). É mais lindo ainda porque estamos num momento bem peculiar no qual o feminismo entrou para o vocabulário da música pop, o que eu acho ótimo. Só que, reforçando a observação anterior, temos presenciado, em sua maioria, as mulheres apenas se posicionando sobre a questão: a rainha-diva-mãe-maior Beyoncé, a fofucha da Taylor Swift, as lelekas Rihanna e Miley e, por aqui no Brasil, Pitty com toda sua elegante eloquência. Steve é um membro muito bem vindo no clube, para mostrar que essa não é só uma questão de interesse para as Luluzinhas.

Às 20h, vinte minutos antes do horário marcado, fui avisada de que a entrevista havia sido cancelada. Steve estava finalizando uma sessão de fotos para a Vogue. Logo em seguida faria um show disputadíssimo no Palco Perry, com direito à segurança impedindo o público de entrar na tenda sob risco de super lotação.

Não fiz a pergunta que tanto queria para Steve: o que levou a escolher essa campo de estudos. Mas perguntei pro Google e descobri que ele se auto-declara feminista e não entende porque ainda há caras que acham estranho um homem dizer isso. Já temos um novo ponto de partida pra conversa quando rolar uma nova oportunidade de entrevista.

27 de dez. de 2014

Charlie XCX sabe se dar prazer melhor que aquele cara mais ou menos e ainda canta sobre isso. Deusa.

Quando Beyoncé surgiu no palco do Video Music Awards à frente de um telão com a palavra "feminista" em letras garrafais, em agosto, não estava só se posicionando positivamente em relação ao tema. Meio sem querer, acabou resumindo o que havia sido (e ainda seria) parte da pauta do pop em 2014. Taylor Swift finalmente percebeu que era uma feminista, Miley Cyrus reafirmou ser uma e ainda sobrou tempo para, aqui no Brasil, Pitty e Anitta protagonizarem um necessário debate sobre a liberdade sexual das mulheres (fora da música ainda teve o discurso de Emma Watson na ONU e todo o bafafá em torno do livro de Lena Dunham, Não Sou Uma Dessas).

Claro, o assunto não ficou só no nível das declarações e virou música também. O hit que colocou uma das vertentes do tema em debate pode ter sido "All About That Bass", de Meghan Trainor (um debate que ficou entre o acerto de incentivar a auto-aceitação do corpo e o equívoco de atacar outros tipos físicos para atingir essa aceitação), mas não foi essa a única música que tratou de questões feministas neste ano. Elas não escalaram as paradas de sucesso nem ganharam os mesmos holofotes e manchetes que o show de Beyoncé e a conversa de Pitty e Anitta, mas ainda dá tempo de você ouví-las:

O ano começou com "Go Forth, Feminist Warriors", uma espécie de versão feminista e mais hipster de "We Are The World" uma vez que reúne um grupo de mais de vinte vozes para tratar das diferentes lutas que as mulheres têm (ainda) que encarar. A comparação com o clássico beneficente capitaneado por Michael Jackson vem de uma das mentoras da gravação, a jovem Tavi Gevison, editora da Rookie, publicação online voltada para o público feminino.

A autoria é de Katy Davidson, nome por trás do projeto Key Losers. Nos vocais: Katie Crutchfield, MNDR, Kate Nash, Kimya Dawson, Suzy X., Tavi Gevinson, Katy Davidson, Marianna Ritchey, Geneviève Castrée, Thao Nguyen, Storey Littleton, Tegan and Sara, Dee Dee Penny (Dum Dum Girls), Ted Leo, Aimee Mann, Psalm One e Carrie Brownstein.

As moças cantam versos como "They mansplain every night and day/ But they can't mansplain our freedom away". "Mansplain" é um verbo fruto do neologismo e que, por isso, ainda não tem tradução direta para o português, mas pode ser entendido como a imposição da visão masculina para explicar uma determinada questão. Talvez algo como "eles impõem sua visão de mundo noite e dia, mas não vão impor a minha liberdade".




Em maio, a rapper norte-americana Sizzy Rocket fez uma espécie de revisão histórica ao reescrever os versos de "Girls", dos Beatie Boys, incontestavelmente um dos clássicos do trio nos anos 1980, mas também uma ode ao sexismo dados versos como "Girls - to do the dishes/Girls - to clean up my room/Girls - to do the laundry" (Garotas - pra lavar a louça/ Garotas - para limpar meu quarto/ Garotas - para lavar roupas).

A música já havia sido retrabalhada em favor das moças no fim de 2013, quando uma fabricante de brinquedos norte-americana usou uma paródia da letra para promover seus brinquedos, todos intencionalmente voltados para desenvolver em meninas o interesse por ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Sizzy deu mais um passo à frente e reescreveu os versos de modo a criar uma versão que fortalecesse jovens garotas, segundo a própria. Ela canta: "They have no idea / the pressure that we have to feel / be skinny / be pretty / have sex appeal / bend over / give it to me like you want a record deal" (Eles não têm a ideia da pressão que sofremos. Seja magra, seja bonita, seja sensual, se curve e se entregue a mim já que você quer um contrato assinado).




Ainda em meados do ano, o quarteto de Seattle Tacocat usou ironia na música "Hey Girl" para esbravejar contra o assédio nosso de cada dia que as mulheres sofremos ao andar pelas ruas, como bem mostraram o viral da moça que recebeu mais de 100 cantadas em 10 horas de caminhada pelas ruas de Nova York e o projeto Chega de Fiu-Fiu. Um bônus-track das moças de Seattle que também merece ser ouvido é a faixa "Crimson Wave", um convite bem humorado à aceitação positiva da menstruação.




Quase aos 45min do segundo tempo, a inglesa Charlie XCX fecha bem a lista com a faixa "Body of My Own", presente em "Sucker", álbum lançado agora em dezembro. A nova música ajuda a ampliar a coletânea de temas pop dedicados à masturbação feminina e ainda afirma com todas as letras: ele sente muito mais prazer sozinha do que com aquele cara mais ou menos.


13 de mai. de 2014

O novo single de Morrissey é da conta dos brasileiros


Morrissey, o nosso ranzinza preferido, o maior inglês vivo (dizem), presenteou o mundo hoje com música nova que fala diretamente, ao e do Brasil, com todas as letras. "World Peace Is None Of Your Business", a música em questão, que também batiza o novo álbum que sai em julho, é uma crítica irônica à opressão promovida por governos e seus aparatos, como as forças de segurança - bem Morrissey.

Depois de bradar contra a violência policial e o abismo social sustentado pelo sistema econômico, Moz dá o recado ao fim da música (veja a letra abaixo): "A cada vez que você vota, você apoia o processo. Brasil, Bahrein, Egito, Ucrânia. Tanta gente sofrendo". Certamente atento ao noticiário internacional, Morrissey deve ter se inspirado nos protestos ocorridos no país que viraram notícia lá fora. Ele talvez só não deve ter imaginado que faria um verso tão certeiro, pelo menos no que diz respeito ao Brasil, tendo em vista que estamos em ano de eleições majoritárias por aqui.

A versão de estúdio do novo single está disponível para audição no iTunes. Também circula no You Tube uma versão ao vivo da música, em show que Morrissey fez na California na semana passada. A melhor versão, porém, é a recitada. Em vídeo promocional, Moz divide a cena com Nancy Sinatra. Em clima de mistério, ele toca piano, quando Nancy surge com uma mala que contém a letra de "World Peace Is None Of Your Business". Enquanto isso, em off, a voz do britânico recita os versos da música nova.




"World Peace Is None Of Your Business", a música

World peace is none of your business
You must not tamper with arrangements
Work hard and sweetly pay your taxes
Never asking what for
Oh oh, you poor little fool

World peace is none of your business
Police will stun you with their stun guns
Or they? ll disable you with tasers
That? s what Government? s for
Oh oh, you poor little fool

World peace is none of your business
So would you, kindly keep your nose out
The rich must profit and get richer
And the poor must stay poor
Oh oh, you poor little fool

Each time you vote, you support the process
Each time you vote, you support the process
Each time you vote, you support the process
Brazil, Bahrain, Egypt, Ukraine
So many people in pain

No more you poor little fools
No more you fool

"World Peace Is None Of Your Business", o disco

1. World Peace is None of Your Business
2. Neal Cassady Drops Dead
3. Istanbul
4. I’m Not a Man
5. Earth Is the Loneliest Planet
6. Staircase at the University
7. The Bullfighter Dies
8. Kiss Me a Lot
9. Smiler With Knife
10. Kick the Bride Down the Aisle
11. Mountjoy
12. Oboe Concerto

25 de abr. de 2014

Girl, put your 90's records on


Ok, não vamos exagerar tanto. Não é qualquer banda feminina com som pesado ou alternativo surgida nos anos 1990 que pode entrar na categoria de riot grrrl, principalmente se você utilizar critérios mais rígidos, mas não dá pra negar que o movimento que trouxe o feminismo para dentro do rock vinte anos atrás abriu espaço para muitas outras grrrlsss (em alguns casos acompanhadas de boys) e duas delas estão de volta com música nova: Veruca Salt, que definitivamente está de volta, e Courtney Love que, dizem, ensaia um retorno do Hole.

Mesmo com discurso sobre questões feministas bem menos (ou quase nada) contundente que o de bandas como o Bikini Kill, Veruca Salt e Courtney Love/Hole ajudaram a ampliar a lista de bandas que colocavam as moças no centro da ação, ajudando a fortalecer na imagem (e também no som) aquilo que os grupos mais politizados faziam principalmente no discurso - e, aceite ou não, imagem ainda é algo importante nesse mundo para formação de valores e identidade.

Mas falando do que interessa neste post, o Veruca Salt apresenta a nova "Museum of Broken Relationships", lado B do relançamento do single de "Seether" (seu principal sucesso), que chegou às lojas neste mês em projeto especial para o Record Store Day. É um aquecimento para o novo álbum que a banda já confirmou que sai ainda este ano.

Já Courtney Love está de volta com "You Know My Name", primeira metade de um single de novidades que ainda vai revelar a inédita "Weeding Day". É que a cantora oferece até o momento para aquecer sua turnê que começa em maio, no Reino Unido. A controvérsia que Love costuma atrair pode gerar aquela indisposição para ouvir a novidade, mas lembre-se que um dia ela fez "Miss World", "Doll Parts" e "Violet" e dê uma chance a ela.

As duas faixas trazem aquele cheiro delicioso de anos 1990, conservando o DNA de seus respectivos trabalhos que o mundo conheceu duas décadas atrás.



11 de abr. de 2014

Kim, Joan, St. Vincent e Lorde: elas são Kurt

Talvez você tenha notado que apenas mulheres - Kim Gordon, Joan Jett, Lorde e St. Vincent - ocuparam os vocais que um dia pertenceram a Kurt Cobain na cerimônia que incluiu o Nirvana no Rock n' Roll of Fame. Elas fizeram o papel do front man do Nirvana enquanto Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear ocuparam seus respectivos postos de baterista, baixista e guitarrista durante a execução de alguns dos principais singles do Nirvana durante a cerimônia. Talvez você não tenha notado. Talvez esse detalhe não tivesse um significado em outro contexto. Mas, nas circunstâncias da noite de ontem, tinha.

Kurt era um cara consciente da prevalência de estruturas machistas e patriarcais no mundo em que vivia. E não se sentia confortável com isso. Em seus diários, disse que "sabia que era diferente. Pensava que era gay ou algo do tipo porque eu não conseguia me identificar com os caras de jeito algum. Nenhum deles gostava de arte ou música. Eles só queriam lutar e transar. Foi há muitos tempo, mas isso me deu esse ódio real pelo macho americano médio".

Em ocasiões diversas, demonstrou seu incômodo diante do sexismo. No encarte de "Incesticide", disse que não queria sexistas (e também racistas ou homofóbicos) em meio ao público do Nirvana. "Se algum de vocês odeia homossexuais, pessoas de cor diferente da sua ou mulheres, faça-nos um favor: deixe a gente em paz, porra. Não apareça em nossos shows nem compre nossos discos". Também eu seu diário, concluiu que "todos os 'ismos' se alimentam um do outro, mas no topo da cadeia alimentar ainda está o homem macho, forte, branco e corporativo. (...) Eu ainda acho que, para expandir em todos os outros ismos, o sexismo tem de ser completamente implodido".

Kurt namorou Toby Vail, ativista feminista e integrante do Go Team e do Bikini Kill, duas bandas da cena riot grrl. Escreveu "Rape Me" e "Polly", duas músicas que ele afirmava ser anti-estupro, apesar de nem todo mundo ter interpretado corretamente a primeira e da segunda não ser tão explícita quanto ao tema. Enxergou em Axl Rose um antagonista, talvez porque Rose integrasse a grande concorrente do Nirvana naquele início de anos 1990, talvez por treta típica de bastidores do rock, mas certamente porque identificava no comportamento do vocalista do Guns n' Roses e em sua música traços de sexismo e homofobia.

Por isso, e acho que só por isso, a inclusão do Nirvana no Rock n' Roll Hall of Fame, essa instituição parte careta, parte tiozona, parte chapa branca, tenha escapado das garras da vergonha alheia (apesar do momento piegas de Courtney e Dave Grohl se abraçando e encenando a dupla BFF). O Hall da Fama, com todos os adjetivos da frase anterior, vai na contramão da origem transgressora do rock. E o rock, apesar da natureza transgressora, nunca foi um terreno completamente livre do viés sexista que Kurt tanto rejeitava. Mesmo que de maneira sutil e indireta, Kim, Joan, St. Vincent e Lorde no lugar de Kurt (será de quem foi a ideia?) deram na noite de ontem o recado que Kurt insistiu em dar em seus 27 anos de vida e que nunca esteve tão na ordem do dia. Pena que quase ninguém captou a mensagem.

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Na TV norte-americana, a cerimônia de indução do Nirvana ao Hall da Fama - com as apresentações das moças à frente da banda - será exibida no dia 31 de maio, na HBO. Até as imagens oficiais caírem na rede para o mundo inteiro ver, dá para acompanhar boa parte da festa graças aos vídeos amadores dos convidados.






17 de mar. de 2014

"Desculpe, Neymar", é o que canta Edu Krieger

A Copa de 2014 ainda não tem um tema musical pra chamar de seu (só um rascunho do que vai ser a música-tema com Pit Bull cantando algo que não tem identificação com a relação entre o brasileiro e o futebol). Mas uma música que expõe o outro lado da Copa, o da insatisfação popular, que explodiu, num belo capricho do destino, em pleno país do futebol, já existe: "Desculpe, Neymar", recém-lançada pelo carioca Edu Krieger.

Em pouco mais de dois minutos de voz e violão, o compositor fala diretamente com o principal ídolo da seleção e com o técnico Felipão sobre sua rejeição do mundial em função de muitas das mesmas razões que vêm sendo expostas pelos movimentos das ruas (ainda que as demandas dessas manifestações não se restrinjam a questões relativas à Copa) - os gastos bilionários com a competição X o descaso com as incontáveis mazelas do país, pra resumir. Parece que as canções de protesto estão de volta, mesmo.

Ouça a música e veja a letra abaixo.


DESCULPE, NEYMAR
(Edu Krieger)

Desculpe, Neymar
Mas nesta Copa eu não torço por vocês
Estou cansado de assistir o nosso povo
Definhando pouco a pouco
Nos programas das TVs
Enquanto a FIFA se preocupa com padrões
Somos guiados por ladrões
Que jogam sujo pra ganhar
Desculpe, Neymar
Eu não torço desta vez

Parreira, eu vi
Aquele tetra fez o povo tão feliz
Mas não seremos verdadeiros campeões
Gastando mais de 10 bilhões
Pra fazer Copa no país
Temos estádios lindos e monumentais
Enquanto escolas e hospitais
Estão à beira de ruir
Parreira, eu vi
Um abismo entre Brasis

Foi mal, Felipão
Quando Cafu ergueu a taça e exibiu
Suas raízes num momento tão solene
Revelou Jardim Irene
Um retrato do Brasil
A primavera prometida não chegou
A vida vale mais que um gol
E as melhorias onde estão
Foi mal, Felipão
Nossa pátria não floriu

Eu sei, torcedor
Que a minha simples e sincera opinião
Não vai fazer você, que ganha e vive mal
Deixar de ir até o final
Junto com nossa seleção
Mesmo sem grana pra pagar o ingresso caro
Nunca vai deixar de amar o
Nosso excrete aonde for
Eu sei, torcedor
É você que tem razão

13 de mar. de 2014

Ditadura chinesa não quis saber de "Honky Tonk Women"

Mais uma da série não tá fácil pra ninguém: os Rolling Stones tiveram que alterar o repertório de seu show em Xangai, ontem, devido à censura do governo chinês. "Honky Tonk Women", que vinha sendo presença constante no setlist da turnê 14 on Fire, foi "vetada", conforme informou eufemisticamente mensagem no twitter da banda. O teor sexual da letra - que, convenhamos, é apenas levemente sugerido - pode ter motivado a censura.

"Brown Sugar", que também vinha sendo em shows da turnê, ficou igualmente de fora, porém nada foi dito para explicar sua ausência no setlist. Mas é bom lembrar que "Brown Sugar" é também um dos "desafetos" do governo chinês. Em 2006, quando os Rolling Stones se apresentaram pela primeira vez na China, o governo proibiu que a banda a tocasse - a letra da música é inspirada em uma das namoradas de Jagger, mas brown sugar também é uma gíria para se referir à heroína. "Honky Tonk Woman", junto com "Beast of Burden" e "Let's Spend the Night Together" também foram vetadas à época. É praxe que bandas submetam às autoridades do país a lista de músicas antes de sua apresentação ao vivo.

Mesmo com as restrições, tio Mick e companhia parecem ter se divertido. Em sua conta no Twitter, Mick Jagger disse que ficou impressionado com o fato de alguns fãs terem compreendido seu mandarim. Já Ronnie Wood subiu ao palco com uma camiseta vermelha (um vermelho digno da bandeira chinesa) com uma estampa de cavalo (exatamente agora que, em 2014, o animal rege o ano, segundo a tradição do horóscopo chinês). Espertinho esse Ronnie.

Serelepes na China, Mick falou mandarim e Ronnie evocou simbologia do horóscopo chinês

Os Stones passeiam com a 14 on Fire pela Ásia e Oceania até abril. No segundo semestre, ao que tudo indica, a rota vai se deslocar para a Europa. Nesta semana, a banda confirmou shows na Bélgica e na Holanda, em junho, período em que o calendário europeu de shows está em seu auge em função dos incontáveis festivais de verão do hemisfério norte - não por acaso, os dois shows anunciados serão em festivais. No fim do ano, a América do Sul pode ser o destino: a banda abriu a agenda de novembro para negociar datas no lado de baixo do Equador (inclusive o Brasil), conforme antecipou o jornal Destak.  


11 de mar. de 2014

Ela simplesmente está no comando. Nada mais, nada menos

Depois de chamar atenção para a desigualdade de renda entre os gêneros em artigo para o The Shriver Report (relatório produzido pela organização A Woman's Nation, que pesquisa as mudanças do papel da mulher na sociedade), Beyoncé colaborou para mais uma iniciativa voltada para a valorização das mulheres.

Ela é uma das vozes da campanha #BanBossy, realizada pela Lean In, organização da chefe operacional do Facebook, Sheryl Sandberg, que discute formas de dar mais poder às mulheres. O propósito da campanha é desencorajar o uso do termo mandona ("bossy") para se referir a meninas e mulheres que demonstram comportamento de liderança. A iniciativa quer chamar atenção para o fato de que, usualmente, esse tipo de comportamento ganha leituras diferentes se apresentado por um homem ou mulher. Se um homem é assertivo e se impõe, ele é visto como um líder, palavra com valores positivos; se é uma mulher, é vista como mandona, um termo com carga positiva - talvez alguém que se lembre que essa foi uma discussão bastante recorrente na época em que a presidente Dilma Rousseff assumiu o cargo e ganhou fama de, adivinhe, mandona.

A ideia, em última análise, é estimular a confiança e atitudes de liderança em garotas - segundo dados da campanha, entre o ensino fundamental e o médio, a confiança das meninas diminui 3,5 vezes mais que a dos meninos; meninas estão propensas a se preocupar duas vezes mais que os meninos com a possibilidade de que um cargo de liderança as faça parecer "mandonas".

Além de Beyoncé (que é líder de si mesma, posto que tem total controle sobre tudo em sua carreira), outras mulheres em postos de liderança de destaque também dão suporte à campanha, como a ex-secretária de Estado norte-americana Condoleeza Rice e a estilista Diane Von Furstenberg. Homens, que ainda não são figuras tão recorrentes quanto necessário em iniciativas desse teor, também participam da campanha. No vídeo que reúne depoimentos de todos esses apoiadores (veja abaixo), sobrou para Beyoncé a fala mais diva, curta e grossa possível: "I'm not bossy. I'm the boss" (Não sou mandona. Eu sou a chefe). Who run the world?


)

10 de fev. de 2014

Beijinho no ombro pra homofobia do Putin passar longe

Música de protesto tem um jeitão de rótulo anacrônico, perdido em algum lugar dos anos 1960 e 1970, mesmo que causas para protestar nunca tenham faltado no mundo. Rótulos datados à parte, 2014 já ganhou duas músicas que, mesmo que não sejam tão imediatamente classificadas ou concebidas como tal, tomam posições em demandas da ordem do dia que esse bando de gente perdida chamada humanidade inexplicavelmente ainda não conseguiu realizar plenamente: os direitos das mulheres e os direitos dos homossexuais.

"Russian Kiss", um batidão eletrônico da cantora norueguesa Annie, mira nas leis anti-gay do governo Putin (é proibido a casais homossexuais a demonstração de afeto em público e a qualquer pessoa falar positivamente da homossexualidade em público), que ganharam mais repercussão devido aos holofotes jogados sobre a Rússia em função da realização dos jogos de inverno no país, na cidade de Sochi.

O título da música carrega certo grau de ironia e provocação, mas os versos são bem diretos: "Don't give up, maybe then they can understand / It is right that you fight for your love demands" ("Não desista, talvez assim eles possam entender que é correto você lutar pelas suas exigências de amor"). O refrão tem tom de grito de guerra: "Shake a fist for the Russian kiss!" ("Erga os punhos pelo beijo russo").




"Go Forth, Feminist Warriors", por sua vez, junta quase duas dezenas de vozes num rap para tratar das diferentes lutas enfrentadas pelas mulheres em tom divertido e ao mesmo tempo estimulante, segundo uma das compositoras, Katy Davidson. O nome pro trás do projeto Key Losers dividiu a autoria da música com sua parceria constante de composição, Marianna Ritchey.

A música foi composta a pedido da revista online Rookie, dedicada ao público feminino e coordenada pela blogueira prodígio Tavi Gevinson (que participa dos vocais). O desejo da equipe da revista era conceber uma espécie de "We Are The World" feminista.

O time reunido é bem menos estrelado que aquele recrutado por Michael Jackson nos anos 1980, mas talvez isso não seja tão importante. Participam da gravação: Katie Crutchfield, MNDR, Kate Nash, Kimya Dawson, Suzy X., Tavi Gevinson, Katy Davidson, Marianna Ritchey, Geneviève Castrée, Thao Nguyen, Storey Littleton, Tegan and Sara, Dee Dee Penny (Dum Dum Girls), Ted Leo, Aimee Mann, Psalm One e Carrie Brownstein.

Entre os versos, "They mansplain every night and day/ But they can't mansplain our freedom away". "Mansplain" é um verbo fruto do neologismo e que, por isso, ainda não tem tradução direta para o português, mas pode ser entendido como a imposição da visão masculina para explicar uma determinada questão. Talvez algo como "eles impõem sua visão de mundo noite e dia, mas não vão impor a minha liberdade".



Sobre qual Arctic você pensou que se tratava o assunto?

Aprendiz de Bono, Chris Martin usa sua visibilidade para defender boas causas. A mais recente delas é a campanha "Save the Arctic" (Salve o Ártico), do Greenpeace, que chama atenção para o derretimento das calotas polares do Ártico - o problema, provocado pelo uso de combustíveis fósseis, e agravado pela exploração de petróleo e pesca predatória na região, se não for controlado, pode comprometer a regulação do ecossistema local e da temperatura do planeta, explica a organização ambiental.

Chris é um dos garotos-propaganda da campanha, que convocou um time de celebridades para posar vestindo camiseta criada por Vivienne Westwood, engajada em causas climáticas - você pode saber o que a estilista tem feito no site Climate Revolution, que ela criou exclusivamente para tratar de seu envolvimento com questões políticas. Além de Chris, a cantora britânica Paloma Faith, a modelo Georgia May Jagger e o ator para-sempre-bonitão George Clooney também estrelam a campanha vestindo Westwood para chamar sua atenção para a causa. Saiba mais aqui.

30 de jan. de 2014

"It's Raining Man" pra arrasar com azinimiga 

Trinta e dois anos depois de virar hit no mundo, "It's Raining Man" está de volta às paradas de sucesso. A música das Weather Girls atingiu nesta semana o número 21 da parada de singles britânica. O motivo da ressurreição: uma campanha no Facebook que quer recolocar o sucesso no topo da parada como resposta ao membro do Ukip (Partido Independente do Reino Unido) David Silvester.

No início deste mês, o político - um (in)Feliciano da terra da rainha - disse que ser gay é "uma doença espiritual" e que o tempo ruim enfrentado pelos britânicos nas festas de fim de ano foi culpa da aprovação de leis pró-casamento gay. Exemplarmente, o Ukip suspendeu Silvester das atividades do partido.

Enquanto isso, "It's Raining Man" segue firme em sua escalada rumo ao topo. No próximo fim de semana, a canção provavelmente vai atingir alguma posição do poderoso Top 20, de acordo com a Official Charts Company, empresa que certifica as paradas britânicas.


6 de nov. de 2012

Gente da música se manifestando a favor ou contra este ou aquele candidato nas eleições presidenciais nos Estados Unidos é coisa corriqueira. O post anterior mostrou isso ao agrupar os artistas pró-Obama e pró-Romney de acordo com o gênero musical. Algumas dessas manifestações não ficaram livres de polêmica ou mal-entendido e acabaram parando nas manchetes. Resolvi relembrar algumas delas, enquanto o bizarro sistema de votação dos States não nos informa quem vai trabalhar na Sala Oval.

#Sóquenão 1
Durante show em Washington, Madonna fez um discurso empolgado sobre Obama, destacando o fato de os Estados Unidos terem um muçulmano no poder. Sendo Obama cristão - apesar da turma da teoria da conspiração achar que ele é, sim, muçulmano, a frase gerou confusão e Madonna divulgou logo depois uma nota alegando que estava sendo irônica.


#Sóquenão 2
Em uma mixtape em conjunto com Lil Wayne, a rapper Nicki Minaj cantou versos nos quais afirmava ser eleitora de Romney. Diante das críticas que recebeu, foi no Twitter explicar que era sarcasmo, e ainda mandou um salve pro Obama.

Conspiração
Hank Williams Jr. afirmou em entrevista que Obama é muçulmano. Como se isso fosse uma coisa ruim. E ainda caprichou na dose ao afirmar que o atual presidente odeia o país. Dias antes, Dave Mustaine, do Megadeth, rendeu alguns cliques aos sites de notícias ao argumentar que Obama estaria por trás do massacre no cinema do Colorado durante uma sessão de "Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge", em julho, quando 12 pessoas morreram e 58 ficaram feridas.  

Mal-entendido
Universitários republicanos usaram como trilha sonora de um vídeo de apoio a Romney a música "Fake Empire", do The National, banda que endossa Obama desde sua campanha em 2008. Alertados pelo próprio vocalista, Matt Berninger, via YouTube, os estudantes retiraram o vídeo do ar. 

Alfinetando
Provavelmente parte do 1% que concentra os maiores rendimentos dos EUA - o que deve evitar o voto de parte dos outros 99%, Mitt Romney recebeu um recadinho de Jaz-Z, que mudou a letra de "99 Problems" durante um dos eventos da campanha de Obama, candidato que apoia. De "I've got 99 problems but a bitch ain't one" o verso passou a ser "I've got 99 problems but Mitt ain't one".



Britânico, Paul McCartney divulgou nesta segunda (5) em seu canal no YouTube um vídeo no qual encoraja seus fãs americanos a comparecerem às urnas hoje (6) e votarem em Obama. Aproveita para reforçar que os músicos de sua banda, norte-americanos, fizeram a mesma escolha (nos Estados Unidos é possível votar antes do dia das eleições - é o que eles chamam de early voting). Se um músico membro do império britânico está se intrometendo nas eleições presidenciais norte-americanas, é de se esperar que os músicos-eleitores estadunidenses façam o mesmo. E fizeram.

Ao longo da campanha, em maior ou menor grau, artistas demonstraram apoio ou a Obama ou a Romney publicamente. Mais que envolvimento na decisão dos rumos do país, as listas (no fim do post) que dividem os músicos em pró-democratas ou pró-republicanos sugerem alguns padrões relacionados ao gênero musical. Conforme já resume o título do post, o hip hop, o r&b e o pop votam em Obama. O Country vai de Romney massivamente. O rock se divide (gráficos abaixo).

Aproximadamente um terço (33%) dos artistas que declararam voto em Obama são de hip hop e r&b. A segunda maior fatia, muito próxima da primeira, é do pop: 31%. Do lado republicano, mais da metade dos artistas que votarão hoje em Romney são do country (55%). O rock, por sua vez, tem fatias menos desiguais nos dois lados: cerca de um quinto dos que vão votar em Obama (19%) e aproximadamente um quarto dos artistas que escolherão Romney (27%).

Dentre os artistas eleitores de Obama, há um peso de nomes dos gêneros de origem negra (note bem: os gêneros são de origem negra, mas não necessariamente os artistas). Além de o hip hop e o r&b, juntos, serem responsáveis pela maior fatia de apoios segundo o estilo musical, artistas de blues, jazz e soul também aparecem na lista. Se somados os músicos de todos esse gêneros, eles representam 42% do total. Dentre os que apoiam Romney, o único gênero de origem negra que tem representante na lista além do hip hop e do r&b é o jazz.

Outro detalhe do grupo de músicos que apoiam Obama é a diversidade e um equilíbrio maior em relação ao gênero musical. Há representantes de mais estilos (blues, soul e folk só aparecem na lista dos apoiadores do candidato democrata) e não há um gênero hegemônico como no caso dos pró-Romney, onde mais da metade são do country. A maior presença de gente do gênero country também faz a lista de suporte do republicano ser mais "obscura" para quem não vive nos Estados Unidos. Como este é um estilo com repercussão basicamente lá, fica difícil, aqui, reconhecer quem é a maioria dos nomes que aparecem na lista, ao contrário da turma obamista. Aos olhos dos estrangeiros, ela parece ser mais popular por concentrar, em fatias próximas, artistas do pop, do rock e do r&b, gêneros que a indústria musical norte-americana há tempos conseguiu fazer penetrar mundo afora.

Simon Frith, sociólogo britânico especializado em música pop e suas implicações culturais, é um cara que defende que o gênero musical é a grande bússola da indústria da música - desde as decisões das gravadoras, passando pela performance dos músicos e o comportamento dos fãs. A julgar pelos gráficos, o gênero também pode operar como bússola para o voto de alguns.



Pró-Obama
50 Cent
Marc Anthony
Fiona Apple
Billie Joe Armstrong
Burt Bacharach
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17 de mai. de 2012

Quem diria. David Cameron, primeiro-ministro britânico, com aquela cara de almofadinha, mostra-se cada vez mais cool - ao menos no gosto musical. Nesta semana, ele declarou que seu álbum preferido de todos os tempos é "Dark Side of The Moon" e colocou músicas dos Smiths, Lana Del Rey e Killers dentre as suas favoritas. Cameron trouxe a público seu playlist por intermédio da campanha governamental "Music is Great Britain" , que pretende divulgar o melhor da música do Reino Unido por ocasião das Olimpíadas.

A se notar: "This Charming Man", dos Smiths, está no topo da lista, comprovando a predileção de Cameron pela banda de Morrissey. Tempos atrás, a banda até foi tema de um debate entre ele e uma deputada no parlamento. Johhny Marr deu piti e, via Twitter, proibiu Cameron de ser fã da banda mas, pelo visto, foi em vão.

Veja o "top 8" do primeiro-ministro:

1. The Smiths – This Charming Man

2. Lana Del Rey - Video Games

3. Mendelssohn – O for the wings of a dove

4. Pink Floyd – Money

5. The Killers – All These Things That I've Done

6. Radiohead – Fake Plastic Trees 

7. Bob Dylan – Tangled Up In Blue

8. Benny Hill - Ernie

11 de abr. de 2012

Senhoras e senhores, eis o candidato favorito à eleição da presidência do Banco Mundial, o norte-americano descendente de coreanos Jim Yong Kim. Reitor da Universidade de Darmouth, ele aparece no vídeo abaixo em performance durante um concurso de talentos da instituição. Tem mais aqui (dica: Michael Jackson).


8 de fev. de 2012

Suplicy é o melhor shuffle ever. Depois de Bob Dylan e Racionais MC's, chegou a vez de Wando ter parte de sua obra lembrada pelo senador no Congresso. Hoje, por ocasião da morte do cantor, Suplicy recitou versos de "Moça" quando lia nota de pesar pelo falecimento do artista.
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