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Talvez você tenha notado que apenas mulheres - Kim Gordon, Joan Jett, Lorde e St. Vincent - ocuparam os vocais que um dia pertenceram a Kurt Cobain na cerimônia que incluiu o Nirvana no Rock n' Roll of Fame. Elas fizeram o papel do front man do Nirvana enquanto Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear ocuparam seus respectivos postos de baterista, baixista e guitarrista durante a execução de alguns dos principais singles do Nirvana durante a cerimônia. Talvez você não tenha notado. Talvez esse detalhe não tivesse um significado em outro contexto. Mas, nas circunstâncias da noite de ontem, tinha.
Kurt era um cara consciente da prevalência de estruturas machistas e patriarcais no mundo em que vivia. E não se sentia confortável com isso. Em seus diários, disse que "sabia que era diferente. Pensava que era gay ou algo do tipo porque eu não conseguia me identificar com os caras de jeito algum. Nenhum deles gostava de arte ou música. Eles só queriam lutar e transar. Foi há muitos tempo, mas isso me deu esse ódio real pelo macho americano médio".
Em ocasiões diversas, demonstrou seu incômodo diante do sexismo. No encarte de "Incesticide", disse que não queria sexistas (e também racistas ou homofóbicos) em meio ao público do Nirvana. "Se algum de vocês odeia homossexuais, pessoas de cor diferente da sua ou mulheres, faça-nos um favor: deixe a gente em paz, porra. Não apareça em nossos shows nem compre nossos discos". Também eu seu diário, concluiu que "todos os 'ismos' se alimentam um do outro, mas no topo da cadeia alimentar ainda está o homem macho, forte, branco e corporativo. (...) Eu ainda acho que, para expandir em todos os outros ismos, o sexismo tem de ser completamente implodido".
Kurt namorou Toby Vail, ativista feminista e integrante do Go Team e do Bikini Kill, duas bandas da cena riot grrl. Escreveu "Rape Me" e "Polly", duas músicas que ele afirmava ser anti-estupro, apesar de nem todo mundo ter interpretado corretamente a primeira e da segunda não ser tão explícita quanto ao tema. Enxergou em Axl Rose um antagonista, talvez porque Rose integrasse a grande concorrente do Nirvana naquele início de anos 1990, talvez por treta típica de bastidores do rock, mas certamente porque identificava no comportamento do vocalista do Guns n' Roses e em sua música traços de sexismo e homofobia.
Por isso, e acho que só por isso, a inclusão do Nirvana no Rock n' Roll Hall of Fame, essa instituição parte careta, parte tiozona, parte chapa branca, tenha escapado das garras da vergonha alheia (apesar do momento piegas de Courtney e Dave Grohl se abraçando e encenando a dupla BFF). O Hall da Fama, com todos os adjetivos da frase anterior, vai na contramão da origem transgressora do rock. E o rock, apesar da natureza transgressora, nunca foi um terreno completamente livre do viés sexista que Kurt tanto rejeitava. Mesmo que de maneira sutil e indireta, Kim, Joan, St. Vincent e Lorde no lugar de Kurt (será de quem foi a ideia?) deram na noite de ontem o recado que Kurt insistiu em dar em seus 27 anos de vida e que nunca esteve tão na ordem do dia. Pena que quase ninguém captou a mensagem.
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Na TV norte-americana, a cerimônia de indução do Nirvana ao Hall da Fama - com as apresentações das moças à frente da banda - será exibida no dia 31 de maio, na HBO. Até as imagens oficiais caírem na rede para o mundo inteiro ver, dá para acompanhar boa parte da festa graças aos vídeos amadores dos convidados.
Pra quem Kurt apontaria a arma se voltasse à vida hoje?
Quando Kurt Cobain se matou, há vinte anos, estava assolado por uma depressão que lhe tirava o entusiasmo de tudo, inclusive da fama e do reconhecimento que havia conquistado com o Nirvana. Se, duas décadas depois, ele tivesse a oportunidade de ressuscitar e mudar os acontecimentos, talvez chegasse a cogitar pôr fim à banda ou fazer música ruim para cair no ostracismo e esquecimento. Talvez assim eliminasse o tratamento leviano que sua memória e legado vem sofrendo por parte de quem se dispõe a lembrar sua história - comportamento que ganhou mais impulso com a proximidade de seu aniversário de morte, neste sábado (5).
Começou com a polícia de Seattle revelando dezenas de fotos da cena do suicídio de Cobain no último mês de março. Fotos que não traziam nenhuma informação nova. Óculos, seringas, cigarro, notas de dinheiro que não dizem nada senão uma sacada esperta para alimentar o interesse mórbido de muita gente.
Courtney Love, eterna viúva, não ficou de fora e abriu a boca para a imprensa nas vésperas dos vinte anos de morte de Kurt, nesta semana, a fim de anunciar suas ideias para administrar o legado do músico. Disse que pretende fazer um musical sobre a vida do pai de sua filha, Frances. Está apelando para um formato de homenagem que, me parece, se distancia muito do universo no qual o Nirvana, Kurt, e todo o legado grunge orbitou.
Correndo por fora, temos forçações de barra, como o escritor Charles Cross, autor do livro "Here We Are Now: The Legacy of Kurt Cobain and Nirvana", que espertamente descobriu, também às vésperas desse aniversário de morte, uma suposta pista para a origem da letra de "Come As You Are" - estaria ligada, segundo ele, a um anúncio de um hotel de Aberdeen, cidade natal do músico, datado dos anos 1940.
Em meio a tantas lembranças por caminhos forçados, talvez esse pessoal que anda por aí vestindo camiseta do Nirvana, só porque está à venda na vitrine da loja ou no look do dia da blogueira, esteja fazendo, por vias tortas e inconscientes, um serviço mais honesto à memória de Kurt e do Nirvana, ao tranasformarem o nome e o símbolo da banda em ícones perto de serem tão identificáveis quanto a gigantesca boca que simboliza os Rolling Stones. Por não terem ideia do peso dos símbolos que estão evocando, por ignorarem a história, não têm interesses, não manipulam, apenas perpetuam uma imagem.
A estátua de Kurt inaugurada ontem, em Aberdeen, e o detalhe que a ~obra~ traz no rosto: uma lágrima
Como já tinha dito aqui antes, neste ano, Aberdeen, cidade natal de Kurt Cobain, transformou o dia 20 de fevereiro no Kurt Cobain Day. A data coincide com o aniversário do líder do Nirvana, que teria completado 47 anos caso não tivesse se matado há duas décadas. Para a primeira celebração da data, ontem, autoridades locais revelaram ao público uma estátua do músico, que a partir de agora ficará em exposição no Museu de História de Aberdeen.
Com uma lágrima no rosto, uma aparência, digamos, não tão fiel aos traços de Kurt, e uma beleza também distante da apresentada pelo moço quando vivo, a "obra de arte" repercutiu na internet pelos exatos motivos citados anteriormente, mas tudo isso passa longe dos detalhes pitorescos que permeiam a história da escultura.
A estátua está pronta há vinte anos e é de autoria de uma fã local, Randi Hubbard, uma ex-motorista de caminhão que pilotava o veículo em competições. Ela começou a se envolver com a arte de esculpir pouco depois da morte da mãe, dois anos antes do suicídio de Cobain.
Uma escultura pequena em barro e cera feita por Hubbard uma noite antes do corpo de Kurt ser encontrado (!!!) foi a referência inicial para o trabalho. A versão em tamanho real, revelada ontem, pesa aproximadamente 270 quilos.
Courtney Love chegou a oferecer para Hubbard moldes de gesso das mãos de Kurt, à época, para ajudar na produção da versão gigante (how the hell essa mulher arrumou moldes das mãos do Kurt?). Já o avô do músico acompanhou todo o progresso do trabalho da fã pessoalmente.
"All Apologies", uma das músicas do Nirvana,é o nome que Hubbard deu para a obra e o tema que a inspirou durante o trabalho. A ~polêmica~ lágrima que escorre do rosto da estátua é a síntese da inspiração encontrada na música, segundo declarou a autora aos jornais em 1994. "Todos temos um Kurt Cobain dentro de nós. Possivelmente, todos já estivemos no limite", ela resumiu.
A peça passou estes últimos 20 anos nos fundos da loja de peças automotivas do marido de Hubbard. Em 1994, três meses após a morte de Kurt, a prefeitura chegou a planejar uma exposição da estátua por três meses em um parque da cidade, mas voltou atrás diante de reclamações de moradores indignados pela homenagem a um jovem drogado e suicida.
A crítica à celebração de uma personalidade autodestrutiva permanece 20 anos depois, e foi um dos pontos levantados pela cobertura norte-americana dos eventos realizados ontem. Mas, pelo visto, a força do revival e da efeméride - em abril serão 20 anos da morte do músico - serão mais forte que o clamor popular. Não tem mais volta. Agora vamos ter que encarar pra sempre a tristeza de Kurt em uma de suas formas menos bonitas. Meh.
Randi Hubbard posa para jornal do Oregon em julho de 1994, enquanto produzia a estátua
A TopShop Unique apresentou peles ao som do ativista e vegetariano Morrissey. Ooops! (2x)
Assim como aconteceu com a semana de moda de Nova York, chegou a hora de resgatar algumas das músicas que integraram a trilha sonora dos desfiles da semana de Londres. O destaque desta vez vai para os hits roqueiros dos anos 1980 e 1990.
A Topshop Unique apostou nas pratas da casa e botou para tocar um dos refrões mais grudentos do britpop, "Girls and Boys", do Blur, e a bela "This Charming Man", dos Smiths. Nota: a canção de Morrissey, vegetariano e ativista dos direitos dos animais, serviu de trilha para uma coleção que não economizou nas peles. Vexame duplo.
Bruce Springsteen foi a escolha de Mattew Wiliamson, com sua "I'm on Fire", baladinha com direito a voz rouca do boss dos norte-americanos e sintetizadores discretos para honrar a década de 1980.
Jonathan Saunders, por sua vez, optou pela melancólica "All Apologies", do Nirvana.
Por um certo tempo, Nirvana, pra mim, era uma lenda que aparecia nas camisetas pretas dos meninos do colégio e no discurso dos VJs da MTV - Gastão, Massari e cia. Era, mais ou menos, 96 ou 97 (com Kurt já falecido), e o que se dizia da banda era exatamente o que se repete hoje, exatos vinte anos depois do lançamento do disco que deu à banda a relevância que garante que ela seja lembrada e celebrada. Diziam que Nevermind havia resgatado o bom rock, que o alternativo finalmente havia penetrado no mainstream, que o rock nunca mais havia sido o mesmo.
Até que um dia, assistindo ao Hits MTV, finalmente ouvi e vi o Nirvana. O clipe era "Lithium". Devo ter criado muita expectativa por causa do excesso de mitificação da banda porque lembro que não achei a música aqueeeela Brastemp. Mas bastou conhecer o Nevermind mais a fundo, juntar com o Bleach e arrematar com o In Utero para o Nirvana se tornar uma das minhas bandas preferidas da adolescência e assim permanecer até hoje. Impossível ficar indiferente e não ser contaminada pela música da banda. Era rock dos barulhentos com uma linha pop muito bem costurada. Kurt, Krist e Dave pareciam tão normais. Com o all star, a calça jeans surrada e o casaco de lã, eram praticamente os mesmos meninos da escola com as camisetas de bandas de rock. Não tinha pose de rock star, tipo de roqueiro malvado, espetacularização ao vivo. Era tudo muito simples, direto e fácil de gostar.
Anos depois, continua sendo assim. Ouvir hoje o Nevermind é como andar de bicicleta depois de deixá-la encostada por um tempo. A coisa simplesmente flui. Houve mudanças também. "Breed" é trilha sonora de encerramento do Domingão do Faustão. A camisa de flanela virou peça do guarda-roupa de uma nova espécie urbana chamada hipster. Dave Grohl deixou de ser o cara escondido atrás da bateria para atingir o status de roqueiro cool. O rock viu uma infinidade de (muitas boas) bandas se proliferarem, principalmente na "era pós-Strokes", está mais para indie que mainstream, afastado das paradas de sucesso e da MTV, mas ao alcance de um clique na internet.
Talvez, por isso, muita gente esteja se queixando e esperando por um novo Nevermind, como espera por um novo messias. Mas não adianta forçar. A coisa vai acontecer sem querer, assim como aconteceu com o Nirvana. Enquanto isso, relaxa e põe o disco pra tocar.
Semana passada, descobri que, desde março, o YouTube hospeda um vídeo com o show completo que o Nirvana fez no Hollywood Rock, em 1993. Descoberta mais inesperada, impossível. Achava que as fitas com a gravação estavam se desintegrando em algum canto obscuro da Globo, responsável pela transmissão de todo o festival e, provavelmente, pouco interessada nesse material (se a dona fosse a MTV, essas imagens já habitado a TV pelo menos ao longo do resto da década de 1990).
O fato é que, há muitos anos, já havia me conformado em nunca ver essa apresentação que se tornou lendário por seus aspectos negativos. Durante anos, ouvi gente que presenciou a apresentação classificá-la como uma das piores e mais avacalhadas da curta existência do Nirvana, muito em função do estado degradante de Kurt que, àquela altura, meses antes de se matar, já estava tomado pelas drogas.
Mas eis que o passado ressurge na tela do meu laptop, me dando a oportunidade de conferir com meus próprios olhos qual foi a do Nirvana naquela noite. E é verdade. O show foi uma esculhambação e todos os méritos são de Kurt, que avacalha com a letra das músicas, com as notas e simplesmente parece não estar no palco. Fiquei imaginando o que se passou pela cabeça do Dave Grohl naquela noite, tendo em vista toda a competência dele, revelada pouco tempo depois com o Foo Fighters.
Ver o show me fez lembrar de um texto que o Álvaro Pereira Júnior publicou na Folha de S. Paulo no fim de semana, chamado "O YouTube Matou o Passado". Resumidamente, ele argumenta que o site transformou o passado em presente. Disponíveis em vídeos para serem checados a qualquer momento, muitos dos fatos ocorridos no passado não seriam mais objeto de dúvida, mistério ou lenda. O lado positivo disso, segundo Álvaro, é a disponibilidade de informação. Mas há também um lado "perverso", ele diz: "Onde não há passado não há ruptura. Se tudo está vivo, nada pode ser superado".
Ainda preciso refletir se o problema é mesmo esse, mas a uma conclusão eu cheguei com essa história toda. Com esse passado feito presente pelo YouTube, ficam menores as possibilidades de romantizar as memórias do passado para manter vivo somente o que for de nosso interesse, assim como diminuem as possibilidades de construí-lo conforme o nosso desejo, no caso de não tê-lo vivido.
No caso do show do Nirvana, a partir de agora, não posso mais dar à banda o benefício da dúvida, nem achar que quem criticou o a apresentação estava reclamando de barriga cheia - ter o Nirvana tocando no Brasil naquele momento, naquela época, não foi pouca coisa. O show foi ruim, é o que as imagens me mostram. Mas ainda assim vale a pena assistir. Pra quem não gastou dinheiro nem teve que se espremer no meio de uma multidão para ver a banda, o show até que fica menos pior no conforto de casa. Pode dar o play.
Pelo visto, não foram só as feições que Frances Bean Cobain herdou dos pais Kurt e Courtney. A mente perturbada também veio inclusa no pacote genético, como comprovam os desenhos feitos pela moça que hoje tem 17 anos.
Frances os assina sob o pseudônimo Fiddle Tim e os exibe, neste momento, na mostra Scumfuck, em Los Angeles.
O título do desenho abaixo empresta o nome à exposição.
Foi em 5 de abril de 1994 que Kurt Cobain decidiu estourar os miolos pra deixar esse mundinho nosso. 16 anos depois do acontecido, como estará Kurt? Será que ele se arrepende de ter se matado?
A revista francesa Les Inrockuptibles tem essas respostas, reveladas em uma "entrevista" inventada, inventiva e debochada "dada" pelo vocalista do Nirvana, direto do além. Na "conversa", traduzida humildemente por esta que vos escreve, Kurt fala, entre outras coisas, de sua vida no paraíso, do grupo de disco music que montou por lá e da boate comandada por João Paulo II que bomba no céu.
Oi Kurt. Como você está? Você já atingiu o Nirvana como Bérégovoy, que chegou lá tão rápido quanto Senna? Tudo bem?
Bom, eu vou ser honesto, o que não é problema algum pra mim: vocês estão enchendo meu saco. Vocês não são os primeiros a me procurar aqui, mas serão os últimos. Já fazem 15 anos que eu parti e com esse pedido de vocês já devo ter recebido umas 35 mil solicitações de entrevista. Francamente, já estou por aqui disso tudo. Eu não parti da Terra a troco de nada... Eu tenho conseguido um pouco de sossego, mas nem sempre isso é fácil. São Pedro veio me procurar pessoalmente, me puxou pela mão e me trouxe ao centro de imprensa do além. Resultato: estou numa sala toda branca, algodoada, doce, entendiante, rodeado por assessores de imprensa assexuados, e ainda tive que aturar nos meus ouvidos Hakuna Matata e Phil Collins por uma hora, enquanto esperava pela ligação de vocês. Uma tortura.
Ah, merda, que pena...
Hmmm. Mas, enfim, preciso explicar algumas coisas. Estou cheio desses idiotas que falam por mim e que aparentemente não entenderam absolutamente nada. Nada. Putz, cara, ainda tem aquelas camisetas horríveis, pretas com escrita branca, "Kurt está morto blá blá blá", isso me dá nojo da vida e da morte. Os garotos que usam isso têm uma ideia completamente errada das coisas, é uma vergonha absoluta. Pior, de tempos em tempos eles voltam a vesti-las, como se fosse um uniforme esportivo. Só por isso, faço questão de me desculpar por tudo que fiz.
Seu suicídio te prejudicou?
Olha, de fato, foi um tiro e eu acredito que isso meteu um chumbo na minha cabeça. Eu me sinto mais maduro, mais sereno. Eu fiz bem em dar o fora, as coisas não estavam indo bem e eu percebia isso. Por outro lado, eu tenho um zumbido maldito nos ouvidos que tem durado esses anos todos. "É melhor desaparecer de vez do que sumir aos poucos", eu escrevi. Que curioso. Teria sido melhor eu ter feito tudo aquilo com um silenciador do que com uma espingarda. E eu ainda fico pensando na Juanita, nossa empregada; eu não fui lá tão camarada assim com ela.
Você acabou de se encontrar com Vic Chesnutt e Mark Linkous. Como eles estão?
Sim, foi ótimo, eu já os estava esperando há algum tempo. Nos até já montamos um grupo. Mas é por diversão, uma coisa meio disco, sabe? Nós nos cansamos de composições depressivas. Nós estamos no paraíso, não no inferno. O vocalista é o Claude François. Você o conhece? Ele deu uma entrevista longa, já faz um tempo. Mark, Vic e eu usamos túnicas fluorescentes e fazemos as coreografias. O grupo se chama Cloclo e seus Vagabundos. Nós cantamos "os anjos, as rosas, a chuva" e fazemos o maior sucesso. Quem eu vejo regularmente é o Jeff Buckley. Ele não veio pra cá direto, acho que antes ele passou alguns meses numa espécie de reformatório ou coisa do tipo. No início a gente não se entendia muito, mas acabamos virando amigos e toda semana vamos ao clube juntos. Só pra irritá-lo, toda vez eu lhe pergunto "e aí, Buckley, tá gostando da piscina?" e ele até dá umas risadas. Ele nada muito mal. Isso explica sem dúvida o que aconteceu com ele.
Você mantém contato com Courtney Love?
Não. Eu ouvi dizer que ela avacalhou um pouco as coisas depois que eu parti, que ela ficou prepotente e parecida com Nicoletta. Vamos combinar que ela nunca foi um anjo, né? Ela fez uns filmes também e acho que não se saiu tão mal. Mas tudo isso eu sei a partir do que me contaram as pessoas daqui que trabalharam no cinema - há muitos por aqui. Eu fiquei bastante amigo do David Carradine, nos divertimos muito, ele é muito brincalhão, o velho Kung-Fu. Só espero verdadeiramente que Coutney seja boa com minha filha Frances Bean, que sente muito a minha falta.
Você se arrepende de não ter feito nenhum trabalho no cinema?
Ah, não. Eu tinha um projeto. O Primeiro Cobain, uma ideia meio engraçada com o Ben Stiller, mas eu me matei antes (risos).
E os seus dois companheiros de Nirvana, Kirst Novoselic e Dave Grohl, alguma novidade?
Kirst é um grande amigo o qual eu lamento muito não poder ver. Eu vi fotos recentes dele e deu um pouco de vergonha, ele está parecendo um frentista de um subúrbio do Zagreb; eu sei que a boa aparência nunca foi o nosso forte, mas há limites. Quanto ao Dave, ele é um baterista fantástico, dá pra ouvi-lo daqui quando ele toca bateria. Adorei o Foo Fighters no início, mas com o tempo eles ficaram muito repetitivos, nem sei quem vai dar o passo em falso primeiro, se o Foo Fighters ou o Green Day, vamos esperar para ver. Ainda não ouvi o Them Crooked Vultures, o super grupo dele, mas isso me cheira a um pé de meia e um cheque pra pagar as contas da casa na Flórida. Eu já dei meu jeito de ficar livre disso: vim pra cá.
Você usa suéter o tempo todo?
Não, cara. Eu revi as imagens do Acústico e fiquei com vergonha, eu pareço um fracassado em decadência que acabou de deixar a geladeira e a torradeira num depósito de vendas. Eu fico incomodado com essas imagens, até com os meus cabelos, que parecem penteados como pelos de axilas. Acho isso horrível. O único momento que eu acho legal é o cover do Bowie, "The Man Who Sold The World". Sempre que eu escuto digo pra mim mesmo que foi uma boa maneira de engalobar o público. Acho que eu deveria ter tocado alguma coisa menos óbvia, como Nougayork, ou aquele cantor do sudeste francês, não me lembro mais do nome dele...
Claude Nougaro! Você o conhece?
Meu Deus, sim, ele está sempre no local dos cantores mortos, por onde passo às vezes. Ele fala o tempo todo, sem parar, sempre rimando e batucando na mesa. É insuportável. Ele já falou umas poucas e boas pro Tupac e está sempre tão bêbado que ninguém o encontra mais. Há pessoas que mesmo mortas conseguem te apurrinhar, é uma loucura isso.
Percebo que você nunca escutou Vicent Delerm...
Claro que sim. Eles te fazem escutar isso quando você faz qualquer besteira e leva uma dura dos policiais do além. Eles te colocam numa espécie de solitária e te fazem ouvir Fanny Ardent. Pra mim é a agonia total. Outro dia eu conversei com John Belushi, que me disse que isso o deixou mais louco ainda e que ele vai voltar pra terra pra procurar esse Delerm com um cacetete.
Aí no além você vê muita gente do mundo da música?
Sim, é uma vantagem isso. Mas acho que você vai ficar admirado com uma coisa: eu ando muito com o ciclista Marco Pantani. Ele tem sempre uns programas legais pra fazer à noite e é um cara muito divertido. Às vezes também eu saio com o João Paulo II, que decidiu aproveitar as coisas boas. Ele abriu uma boate, o Paraíso II, e eu te garanto que ele está levando isso muito a sério. E como ele é polonês, tem muita vodca e a gente aproveita isso. Ele é um cara muito gente fina, te juro.
A edição deste mês da Rolling Stone brasileira circula, pela primeira vez, com duas capas, ambas estampando Kurt Cobain, vocalista e guitarrista do Nirvana, morto em abril de 1994. A revista traz um especial em memória aos 15 anos de morte do músico, com textos que relembram os últimos dias de vida de Cobain e a passagem de sua banda pelo Brasil em 1993, no Festivla Hollywood Rock.