3 notas sobre a morte de David Bowie

O que eu trouxe na bagagem da Colômbia

A(s) pergunta(s) que eu não fiz para Steve Aoki

24 de dez. de 2020

 

Everyting is Everthing é pra mim, antes de tudo, uma memória visual - Nova York como um grande toca-discos é algo certo de ficar pra sempre na sua mente. Depois vem a batida forte, confiante. 

Quanto à letra, do alto dos meus 13 anos não necessariamente eu estava filosofando sobre as questões mais profundas que a Lauryn Hill escreveu (faltava maturidade e nível de inglês na época). 

Até que, uns 20 anos depois, eu me reencontrei com a música. 

Exatamente quando estive em Nova York, uns três anos atrás, graças a uma oportunidade daquelas que são preciosas. Inicialmente me pareceu inesperada, mas hoje vejo que foi um fruto que tinha chegado no momento de ser colhido. 

É claro que num primeiro momento eu pensei na música (no clipe, na verdade) quando me vi caminhando pelas mesmas ruas que via a Lauryin caminhando naqueles anos de adolescência regados a MTV - a memória visual. Mas depois de um atraso histórico resolvi prestar atenção nos versos que ela escreveu (agora sim com um inglês mais decente) e - bingo - a letra conversou muito comigo e com o que eu tinha passado até chegar naquele momento.

E agora eu volto nela outra vez como um religioso recorre a um salmo, nesse ano cheio de provações. Porque a força e a confiança da batida que eu falei ali no início também estão na mensagem da letra. Tem uma dureza necessária conduzindo tudo, mas é ao mesmo tempo reconfortante. Bem do jeito que a gente precisa pra atravessar tempos difíceis.  

23 de mai. de 2020



If I Ever Feel Better é a versão musical do zeitgeist do millenial adulto sem querer ter sido. A musicalidade ainda fresca e a aderência ao sentimento de tempos recentes nem de longe fazem lembrar que esse single do Phoenix foi lançado em 2000.

Naquela época, eu pelo menos, não imaginava que no futuro iria me enxergar tanto em uma música que contrasta uma melodia positiva com uma letra carregada. A melodia é praticamente uma brisa batendo no rosto em uma caminhada despreocupada numa manhã de verão em alguma capital cool da Europa. E a letra é aquele choro desatado no banho quando tudo desaba e só sobra a impotência. Só que tudo isso ao mesmo tempo, misturado, confuso, contraditório.

O caos está formado aqui dentro e lá fora, mas na aparência está tudo bem. Porque no fim pode não ser lá o fundo do poço, ou porque é um jeito de fingir que nada está acontecendo e fugir do problema, ou porque o otimismo da superação permanece de pé. Ou um pouco de tudo.

É o mesmo sentimento por trás do cachorro do "This is Fine"; do "tô rindo, mas é de desespero"; das piadas do Greg News sobre a realidade cada vez mais surreal e angustiante do Brasil; do verbo chorrir.

O que resta é se apegar àquilo que a letra deixa em aberto: se algum dia eu me sentir melhor...

"On Fire", quadrinhos de 2013 do artista KC Green 


24 de set. de 2019



Dia desses passou no meu feed de sugestões do YouTube pela enésima vez o clipe de "Con Altura", da Rosalía. Um sinal bem claro do tanto que tenho escutado a cantora recentemente. Mas não só eu. O que me chamou atenção para o thumbnail que nesse ponto da história já é um velho conhecido meu foi a contagem de visualizações. O clipe está na reta final para atingir 1 bilhão de reproduções. No dia em que notei isso, eles estava com aproximadamente 840 milhões de visualizações. Mais ou menos uns dez dias depois, enquanto escrevo este texto, ele já atingiu os 900 milhões.

A primeira vez que ouvi "Con Altura" foi no Lollapalooza Chile, exatos três dias após o seu lançamento. O single foi publicado em todas as plataformas no dia 28 de março, uma quinta, e Rosalía se apresentou no festival em Santiago no dia 31 de março, um domingo.

Quando a multidão reconheceu as primeiras notas, soltou aquele grito eufórico de aprovação, típico de quando está prestes a ouvir um grande sucesso ao vivo. Logo depois, surgiu aquele mar de celulares para registrar o momento, um gesto característico dos dias atuais de quando o público está ouvindo um hit ao vivo. E o refrão todo mundo já sabia de cor. Tal qual um hit.

Eu me lembrei desse momento quando vi os números estratosféricos no YouTube e fiquei feliz de estar lá como testemunha. Numa época em que a gente consegue medir tudo com tanta precisão, em tempo real, pelos views, streams, likes, retweets e outras métricas das grandes plataformas, presenciar in loco uma amostra desse sucesso brotando é como achar um bilhete premiado.

Os números de views no YouTube vão continuar crescendo loucamente sem que eu dê conta de acompanhar, mas a memória daqueles poucos minutos surpreendentes (e do resto do show) no Lolla Chile vai me acompanhar por muito tempo.

21 de set. de 2019


No post que marcou o fim de um hiato longuíssimo neste blog, comentei que um dos episódios que me gerou a inquietação para voltar a escrever aqui foi a viagem que fiz para Manchester no meio do ano. Mais especificamente, a viagem para a Manchester dos Smiths e do Joy Division. Detalhes dos porquês e dos rolês eu contei neste textão pro Festivalando, aquele blog que "me roubou" daqui (mentira, escolhas minhas :P).

8 de set. de 2019



Às vezes o alento para um momento ruim pode começar a partir da compreensão daquilo que se está sentindo. Eu estava outro dia pensando sobre a bagunça desses últimos anos no Brasil e sobre todo o esforço pra se manter ainda de pé nesse cenário de caos, incerteza, com tudo desmoronando aos poucos - mas num ritmo mais rápido neste ano - e comecei a racionalizar os efeitos disso tudo. Uma exaustão decepcionante, porque não vem acompanhada de nenhum resultado, mas sim da percepção de que todo o empenho não é suficiente pra levar a gente pra lugar nenhum. É um desgaste diário pra continuar na mesma. Como correr pra ficar parada - numa perspectiva menos pessimista, já que a sensação, na maioria das vezes, é de estar andando para trás.

E assim Running To Stand Still foi surgindo detrás da parte mais nublada da minha memória, já que nunca foi uma das minhas faixas preferidas do Joshua Tree. Mas estava lá, empoeirada, traduzindo com certa exatidão, nos limites que a interpretação permite, esse sentimento pesado que é preciso carregar pra viver no nosso país nesses anos improváveis, mas reais.

A letra foi inspirada originalmente na epidemia de heroína que atingiu a Dublin do U2 nos anos 1980, mas tem elasticidade o suficiente pra caber em outras realidades de batalha, pessoal ou coletiva, contra forças que parecem ser mais indestrutíveis que a nossa resistência.

Seguimos correndo.

30 de ago. de 2019



Reconhecer-se em uma narrativa traz conforto. É como se a gente encontrasse pronta a nossa mitologia pessoal. Por muitos anos, me agarrei a uma dessas histórias que a cultura pop fabrica para as massas, mas que ao mesmo tempo parecem ser uma representação pessoal sob medida.

Era "Quase Famosos", o filme que conta a história de William Miller, o adolescente que entrevistava bandas de rock e escrevia para a Rolling Stone - um filme quase autobiográfico, já que o diretor, Cameron Crowe, viveu um momento semelhante em sua vida.

William era o que eu tinha escolhido ser quando crescesse. Tudo bem que era menino, vivia nos anos 1970 e suas únicas referências possíveis eram o classic rock. Mas era o que mais se aproximava do que eu projetava pra mim e assim me apeguei afetivamente ao filme.

Corta para 2018, quase duas décadas depois. Eu estava pesquisando alguns livros para comprar e ler nas minhas férias de fim/início de ano quando me deparei com um romance da inglesa Caitlin Moran, que eu já conhecia de "Como Ser Mulher". O livro da vez era "Do que é feita uma garota". A sinopse: "Um romance de formação hilário, com trilha sonora de Velvet Underground, My Bloody Valentine e as melhores bandas indie rock nas paradas dos anos 1990". Não precisei de nada mais que isso para comprar o livro.

A minha expectativa era tão somente ler um romance agradável que teria a música como pano de fundo e pra mim isso já seria o bastante para valer o livro. Mas ali, enfim, eu me vi num espelho. Ali estava uma versão muito mais próxima do que eu posso adotar como minha mitologia pessoal.

A garota do título é Johanna Morrigan, uma adolescente dos anos 1990 fissurada em música de uma família pobre que se vira como pode para ouvir os discos das bandas de que gosta mas não tem dinheiro para comprá-los e em determinado momento vira jornalista musical da NME. Encontrei bastante de mim na Johanna, não só nesse resumo espremido do que é a personagem como também nas citações a Kurt Cobain, Smashing Pumpkins, Manic Street Preachers; nos crushes com os caras de bandas; nas descobertas, prazeres, perrengues e inquietações que só uma menina cis tem durante a adolescência.

Ler o livro a essa altura da vida foi como me reencontrar com a Priscila que eu fui um dia e com parte da Priscila que eu achava que eu iria ser. Porque um dia eu fui essa adolescente que decidiu ser jornalista de música para passar o resto da vida em uma redação de jornal ou revista escrevendo textos sobre bandas e resenhando shows. De fato, eu consegui ser exatamente isso por um tempo, mas fui além, graças às linhas tortíssimas e imprevisíveis da vida.

Nem nos meus sonhos mais fantasiosos eu imaginaria que eu acabaria co-criando um veículo próprio - o Festivalando, um blog de viagem para festivais de música, do zero, e que ele seria uma fonte de renda, uma referência e me permitiria fazer tudo o que eu sempre quis e o que eu não imaginava que poderia fazer para além dos limites físicos de uma fria redação de jornal. Eu faço esse tudo e algo mais pelo mundo afora. O meu eu do passado, que só viajava para o interior de Minas, só entraria em um avião aos 24 anos de idade e só sairia do Brasil aos 27, chegaria para o meu eu de hoje e diria espantadíssima: foi DESSE JEITO que você conseguiu?

Desde a leitura do livro, fiquei com a inquietação de voltar a escrever aqui. Este blog foi por algum tempo o espaço que eu usei para canalizar meu ímpeto de escrever sobre música com mais liberdade, sem as pré-definições que precisava (e ainda preciso) cumprir ao fazer isso profissionalmente. Meu playground, meu confessionário, meu momento "dance like nobody's watching". Só a minha vontade de escrever sobre o tema, que me acompanha já há mais de duas décadas, e nada mais.

No meio do ano, fiz uma viagem que me aproximou ainda mais disso tudo. Vi o The Cure ao vivo no Rock Werchter, na Bélgica; fui pra Manchester e perambulei pelos mesmos lugares onde um dia perambularam os Smiths e o Joy Division. Tão longe, tão perto, experimentei novos momentos de reconexão com aquela Priscila que um dia eu fui e que se transformou na Priscila que hoje está aqui.

A não ser pela falta de tempo, não deu mais pra segurar e cá estou eu quebrando um hiato longuíssimo para voltar a movimentar este blog. Não sei se vou conseguir, mas vou tentar. Preciso tentar, pois se eu sou o que sou hoje e faço o que faço hoje, é porque eu gosto de música e o que eu escrevo aqui é a expressão mais direta desse ímpeto.

25 de abr. de 2016

Em turnê pela América do Sul, Marillion prepara o álbum "FEAR" para setembro. Crédito: Carl Glover


Numa época em que impera a “retromania” – termo do crítico musical inglês Simon Reynolds para definir a obsessão da cultura pop em geral e da música em particular pelo passado, com inúmeras turnês de reunião, revivals e relançamentos de discos clássicos –, é notável quando uma banda com 37 anos de estrada não tenha ficado mais que quatro anos sem lançar material novo e esteja com mais um disco a caminho.

É exatamente o caso dos ingleses do Marillion que, em fase de finalização de seu 18º disco, abrem sua turnê 2016 com três shows no Brasil, um deles em Belo Horizonte, no domingo (1º), no Sesc Palladium. “Nós não conseguimos parar. Mais de 30 anos juntos significa que nós nos conhecemos uns aos outros muito bem e quando nós fazemos música juntos continua sendo divertido e especial. Porque deixaríamos de fazer isso?”, devolve o tecladista Mark Kelly.

Kelly promete um show com repertório diferente daquele visto há quase exatos dois anos, quando a banda tocou também em maio de 2014 na capital. “Nós também vamos fazer uso intenso de projeções de filmes de animação especialmente feitos para complementar as músicas”, promete.
O músico só não promete tocar – ainda – as músicas do novo álbum, que estão sendo lapidadas. O resultado final só virá a público em setembro, mês previsto para o lançamento de “FEAR – Fuck Everyone and Run” (“Medo”, cujas iniciais da palavra em inglês formam também as iniciais das palavras que compõem a frase que complementa o título, “f*** todo mundo e corra”, em tradução livre).

O título foi concebido pelo vocalista Steve Hogarth e carrega um significado mais profundo do que as palavras aparentemente mal-criadas e rebeldes possam sugerir num primeiro momento. “Todos os impulsos humanos que valem a pena vêm do amor. E todos os impulsos negativos vêm do medo. O título não carrega nenhum tipo de raiva nem tem intenção de chocar. Ele é usado num sentido terno, e também de tristeza e resignação, inspirado em uma Inglaterra e também em um mundo no qual a filosofia do ‘cada um por si’ cresce cada vez mais”, esclarece Hogarth, lembrando também que o título é mencionado na música “New Kings”, uma das faixas do novo álbum.

Sem economizar no realismo e na sinceridade, Hogarth adianta que “existe um sentimento de mau-presságio que permeia grande parte desse disco”. “Eu sinto que estamos nos aproximando de um tipo de mudança radical no mundo – uma tempestade política, financeira, humanitária e ambiental irreversível. Espero estar errado. Espero que o meu medo do que parece estar aproximando seja apenas isso mesmo, e não o medo do que de fato está para acontecer”, lamenta.

Kelly corrobora os efeitos desse cenário temerário na sonoridade do novo disco. “Liricamente o disco é bastante sombrio”, adianta. “Mas, de alguma forma, a combinação de música e letra é inspiradora”, pondera. Banho de realidade à parte, a banda conta que o disco novo soma, por hora, apenas quatro músicas próximas da finalização. Três delas têm mais de 15 minutos de duração. “É um álbum bastante progressivo que leva você numa viagem musical. Eu acho que vai se tornar um de nossos melhores discos”, aposta Kelly.

Sinal dos tempos para uma banda que lutou tanto para se desvencilhar, justamente, do rótulo de progressivo. “Não era cool ser chamado de progressivo, neo-progressivo ou qualquer outra coisa. Passamos a maior parte da nossa carreira não sendo descolados por causa disso e tentamos nos distanciar do rótulo de progressivo. Depois de um tempo, decidimos abraçá-lo. Hoje em dia, progressivo é cool, mas nem estamos reclamando. Nós somos qualquer coisa que as pessoas pensem que somos. Rótulos não importam tanto numa época em que é fácil apenas entrar na internet para conferir o que tem pra ouvir”, conclui.

Marillion
Sesc Palladium (av. Augusto de Lima, 420, centro, 3214-5350). Dia 1º (domingo), às 20h. R$ 350 (inteira, plateia 1), R$ 280 (inteira, plateia 2) e R$ 200 (inteira, plateia 3)

*Texto publicado originalmente no jornal Pampulha do dia 23/04//2016

11 de jan. de 2016

Starman


David Bowie morreu e eu passei o dia inteiro com três coisas na minha cabeça:

1) Estranheza é o sentimento mais forte pra mim neste momento 
Surpresos todos nós estamos, pesarosos também. Mas ainda tenho que lidar com o estranhamento porque Bowie parecia uma figura muito próxima nos últimos dias - o que por si só já é estranho. Eu passei a última semana de 2015 lendo O Homem Que Vendeu o Mundo - David Bowie e os anos 1970, uma análise exploratória super profundo e detalhada que Peter Doggett faz da obra de Bowie na década de 1970, período em que ele dominou a arte de surpreender o mundo (curioso que passei os últimos dias de 2014 também lendo um livro sobre Bowie, Dangerous Glitter - Como David Bowie, Lou Reed e Iggy Pop Foram ao Inferno e Salvaram o Rock´n´roll, de Dave Thompson.

É um calhamaço de quase 600 páginas e eu tinha mais de 400 para finalizar a leitura que eu havia interrompido lá pra agosto. Devorei umas 100 páginas num dia, umas 50 em outro, 80 em outro, e nesse ritmo voraz acabei me adensando no universo "bowiano". Ao fim, parecia que eu tinha conhecido Bowie de perto e batido alguns papos com ele. O lançamento de "Blackstar" alguns dias depois, o aniversário e alguns documentários que vi na TV por conta da comemoração dos seus 69 anos só reforçaram essa sensação de presença de Bowie em minha vida.

Ele parecia tão próximo nesses últimos dias (justamente nesses últimos dias!) e, no mesmo instante em que estava aqui, já não estava mais.

2) A internet está certa
Horas depois da notícia da morte de Bowie, começaram a pipocar na internet textos que analisam como seu último disco era, na verdade, um anúncio sobre sua morte. As simbologias em torno do nome ("Blackstar"), do single ("Lazarus", o personagem bíblico que morreu e foi ressuscitado por Jesus, as menções ao paraíso na letra) e do clipe do single em questão (com Bowie em um leito de hospital) foram logo decifradas. Poderia ser mais uma das pirações conspiratórias dessa terra sem lei chamada internet, mas desta vez não há motivos para o ser.

O que Bowie fez de melhor não foi criar uma escola musical ou revolucionar um gênero, apesar dos bons hits, bons discos e a influência em gerações de músicas posteriores. A música foi o principal veículo que ele encontrou para expressar suas intenções artísticas e criativas, mas no fim das contas ele foi um performer e sua grande maestria foi usar carreira, palco e seus inúmeros personagens como um laboratório de testes sobre o que é ser um artista, um performer e sobre como é possível construir, desconstruir e manipular tudo isso.

Se até então Ziggy Stardust e os Spiders from Mars eram o melhor exemplo disso, as interpretações em torno da simbologia de "Blackstar" e do single "Lazarus" (letra e vídeo) indicam que temos agora uma amostra inimaginável e ainda mais emblemática dos happenings que só Bowie soube produzir.

3) Não adianta querer fazer textão sobre Bowie
Quando se tem Jon Pareles para condensar em um único parágrafo toda a significância da existência artística de Bowie, talvez o melhor a fazer seja apenas ler, reler e tresler o trecho do texto em questão. E também agradecer o fato de que há sempre alguém muito mais habilidoso em seu ofício para expressar e dar sentido àquilo que as nossas limitações nossas nos impedem de fazer.

"David Bowie, o compositor infinitamente mutante e ferozmente vanguardista que ensinou gerações de músicos o poder do drama, das imagens e personas, morreu no domingo, dois dias após seu aniversário de 69 anos."

Esta é uma tradução livre do obituário que o sempre brilhante Pareles escreveu para o New York Times. Nos regimentos internos do jornalão norte-americano, o primeiro parágrafo do obituário, chamado "cláusula quem", deve resumir com riqueza de detalhes a vida da personalidade citada.


PS: Meu agradecimento ao Nirvana, que regravou "The Man Who Sold the World" em seu acústico e, assim, me apresentou David Bowie.

4 de ago. de 2015

Quem é o pão e quem é a manteiga?

Eles formam a dupla indie-eletrônica descolada e low profile; ele é o rapaz das músicas de amor e sofrimento estouradas nas paradas de sucesso. Portanto, não habitam exatamente o mesmo território. Mas quando eles, Disclosure, se juntam com ele, Sam Smith, é como se fosse pão com manteiga. A dupla de irmão britânicos, as duas fatias de pão; o cantor pop, a manteiga (e daquelas bem derretidas).

A primeira parceria, o single "Latch", lançado em 2012, poderia ter sido apenas um acaso de sintonia. Mas o recém-lançado single "Omen", a segunda parceria do trio, indica que há uma empatia artística entre Disclosure e Sam Smith que faz tudo se encaixar tão natural e suavemente que é como se os mocinhos formassem todos uma mesma banda. Sam ganha mais groove, Disclosure ganha mais sentimento. A propósito, porque eles não partem para fazerem um disco juntos? Já quero!








2 de ago. de 2015

Shining: é black metal, é jazz, é Noruega



Eu fiz esse texto há quase um ano para o Festivalando, mas ele acabou não sendo publicado. Falo sobre duas bandas que conheci (e gostei muito) durante o Brutal Assault, festival de heavy metal na República Tcheca, no qual estive no ano passado. Aproveitando que nesta semana rola mais uma edição do festival, resgato o texto neste espaço.

Reza o clichê dos festivais de música que os mesmos são uma ótima oportunidade para descobrir (e aprender a gostar de) novas bandas e artistas, já que há oferta grande de shows num curto espaço de tempo. No meu caso, não havia lugar melhor para colocar o clichê à prova do que o Brutal Assault, na República Tcheca. Festival de heavy metal, que não é exatamente a minha praia, com uma tonelada de nomes desconhecidos pra mim (ok, como eu sou poser, pelo menos o Slayer me era um nome familiar).

Clichê posto à prova, clichê comprovado: depois de uma dezena de shows, saí de lá com duas bandas que se tornaram as minhas favoritas de todos os tempos dos últimos meses. Shining e Combichrist, ambas coincidentemente da Noruega, ambas coincidentemente escaladas para tocar uma na sequência da outra na penúltima noite do festival.

Roupa de indie
"Olha, Pri! Tá parecendo essas bandas que você gosta". Foi o comentário da Gra quando o Shining subiu no palco. E era verdade. Todos super elegantes em peças pretas de alfaiataria super bem ajustadas. Poderiam se passar por um Interpol, Franz Ferdinand ou Kraftwerk caso alguém olhasse bem rápido, de longe. Talvez o visual indie-friendly tenha me deixa mais predisposta a curtir o show, o que aconteceu de fato.

O que me conquistou no Shining foi o híbrido ousado de industrial com black metal e... jazz, este último onipresente no sax do vocalista Jørgen Munkeby. O disco "Blackjazz", de 2010, sintetiza em seu nome o som que a banda vem fazendo desde então. Antes disso, a banda fundada em 1999 fazia jazz instrumental, com um flerte para o rock sintetizadores no meio do caminho que acabou culminando no som atual. Vale a pena ouvir os trabalhos desde o início para entender como o Shining chegou até o seu único e peculiar black jazz.




PS: Shining deve ser um nome de banda com muito apelo na Escandinávia, visto que há uma banda homônima sueca de black metal. Munkeby declarou em entrevistas que não vê problema algum na coincidência.

Rave metal
Eu já estava satisfeita com minha descoberta do Shining quando, na sequência, o Combichrist veio completar minha alegria de criança provando doce novo. O que me pegou na banda, que está na ativa desde 2003, foi a mesma lógica do Shining, a combinação de elementos que normalmente não dialogam muito. No caso do Combichrist, a receita é música eletrônica com vocais e batidas agressivas, o que os ~entendidos~ chamam de aggrotech, um derivado do industrial.

Mais legal que conhecer as duas bandas (pohan, como eu consegui não conhecê-las durante esse tempo todo?), foi ver o público curtir os dois shows tendo em vista as propostas menos ortodoxas em relação gênero dominante do festival. Abaixo, trechos do Shining e do Combichrist no Brutal Assault 2013, na história noite em que ambos me conquistaram :P



30 de mai. de 2015

PRE-PA-RA que é hora do show das poderosas

Um abraço apertado cheio de gratidão em quem teve a ideia de colocar no ar um programa como Lucky Ladies Brasil, o reality show que estreou na Fox Life na última segunda (25). Tendo Tati Quebra Barraco como chefona-poderosa-mentora-mor, o programa reúne MC Carol, Mary Silvestre, Karol Ka, MC Sabrina e Mulher Filé em uma cobertura super ostentação com vista para a praia de Copacabana. Sob orientação de Tati e do produtor musical Rafael Ramos, as moças vão ser preparadas para se apresentarem em um mega show ao lado de sua mentora ao final do programa.

Em uma tacada só, ficamos livres:

1) dos formatos engessados dos programas caça-talentos que pipocam na TV aberta
2) dos candidatos a ~ídolos~ que confundem gritaria com técnica vocal, cheios de trejeitos copiados do pop americano e muito carentes de personalidade, espontaneidade e presença de palco
3) dos jurados inexpressivos, e que só despertam algum tipo de reação no público quando são muito irritantes (pense na Milk da Bahia)

Em troca, Lucky Ladies nos deu:

1) um reality com uma cara bem própria. A Fox Life em sua versão hispânica tem seu Lucky Ladies também, mas ele mostra a vida das esposas de roqueiros famosos do México, claramente uma proposta bem diferente. E é claro que um programa que coloca figuras de personalidade voltadas para um objetivo comum, como é o caso do reality brasileiro, é muito mais propositivo e tem muito mais apelo
2) participantes que transbordam personalidade, mulheres com muita história pra contar, fortes, empoderadas e diferentes entre si no comportamento, na aparência e na carreira construída no funk até aqui
3) uma mentora igualmente de personalidade transbordante, forte, empoderada que vai falar o que for necessário sem meias-palavras

De bônus, o programa ainda vai atacar em outras duas frentes: mostrar as histórias de vida das cantoras, como boas personagens que são e ainda vai colocar o funk em discussão. Ficou claro já no primeiro episódio que há uma tensão muito grande no que diz respeito à autenticidade e legitimidade de uma funkeira (ex-miss, com origem longe das comunidades, Mary Silvestre quer provar que também tem o direito de fazer funk) e sobre como deve se pautar seu trabalho (Mulher Filé explora muito o próprio corpo. Tati Quebra Barraco já adiantou que ela precisa cantar mais e dançar menos. MC Sabrina se incomoda com o fato de essa postura perpetuar a ideia de que brasileira é só bunda).

Ou seja, vai mostrar que tem pessoas muito interessantes fazendo funk e levando a coisa toda a sério, como a indústria da música exige de qualquer outro artista que quer se projetar. Pra você que ainda faz cara de nojinho pro funk, essa é uma boa deixa pra mudar.

Lucky Ladies vai ao ar na Fox Life às segundas-feiras, às 22h30.

11 de mai. de 2015

Ainda bem que eu tenho os Beatles para colorir e posso, assim, fugir das tediosas e repetitivas mandalas

Nos últimos quinze dias eu dei uns rolês por umas quatro ou cinco livrarias, aqui em BH e em São Paulo, e me deparei com a onda dos livros de colorir para adultos. Onda, não. Tsunami, porque a coisa veio com força descomunal e de maneira repentina. Em quaisquer das livrarias, lá estavam os livros de colorir em pilhas imensas, expostos bem na entrada, para (retro)alimentar um desejo misterioso surgido do nada por colorir desenhos.

Em tese, problema nenhum. Não me importa se isso é uma moda passageira, um fenômeno saudosista ou o indício de uma mudança comportamental e surgimento de uma nova tendência - quem tem um hábito, seja lá qual for, o mantém independente das oscilações do mundo exterior. Mas me incomodou demais notar que em todas as livrarias os livros eram sempre os mesmos. Exatamente os mesmos - aqueles com desenhos de paisagens naturais, flores, folhas, mandalas, com padrões repetitivos.

Muita gente pode ter ficado com vontade de colorir da noite pro dia, mas nem todo mundo tem vontade de colorir essas coisas. Eu não tenho. Quero colorir coisas que tenham a ver comigo e de que eu goste. Desenhos dos Beatles, por exemplo. As fotos deste post são de um livro de colorir que comprei há três anos em Liverpool, no Beatles Story, o museu que conta a história da banda. Queria achar outras coisas ligadas a este universo musical. Tem gente que deve estar a fim de colorir os heróis da Marvel, outros a fim de uns desenhos de Star Wars, outros dos Simpsons. Ou paisagens de cidades futurísticas, de grandes obras de arte, das sete maravilhas do mundo, do espaço, de aliens, zumbis, whatever.



E aí que tem umas outras opções de livros do tipo no mercado (desenhos do Warhol, do Van Gogh, uns desenhos divertidíssimos de suruba feitos por vários cartunistas brasileiros), e eu não entendo porque as livrarias simplesmente não aproveitam a onda para expor uma gama maior de produtos aos seus clientes. E não entendo porque os detentores dos direitos de personagens e franquias como as que eu citei acima não acordam pra vida e lançam livros com seus personagens para surfar na onda, ganhar um $ a mais e ainda fazer a alegria da galera que está órfã de livros de colorir que dialoguem com seus interesses.

A internet, como sempre, muito mais rápida, já oferece opções menos pasteurizadas, caso dos sites Super Coloring e The Color (desconsidere o uso de Comic Sans).

PS: Sim, é verdade o que dizem. Colorir realmente ajuda a dar uma relaxada, a mergulhar em um outro mundo, além de fazer o tempo voar sem você perceber. Mas também deixa a mão doendo pra caramba, mas isso não te dizem.

29 de abr. de 2015

Não se engane: eles soam retrô, mas não vivem de passado

O Sparks poderia estar anunciando uma turnê de despedida com todos os seus principais singles no repertório. O Franz Ferdinand poderia estar lançando uma versão deluxe de "Take me Out" para comemorar uma década de seu principal single. Mas, de maneira muito honesta, eles estão pedindo sua atenção e te ofertando música nova sob a identidade de FFS, banda que surge da união dos quatro escoceses (o FF) com os irmãos Ron e Russel Mael (o S). Ainda bem.

Num momento presente em que a música (e também parte de seu público) vive tanto de passado - turnês de despedida, turnês de reuniões, reedições de discos clássicos, o FFS vem para mostrar que dá para unir passado e presente de um jeito muito mais interessante. A banda synthpop/new wave/e mais um tanto de coisa formada em Los Angeles nos anos 1970 se une aos escoceses que vieram na onda do ~novo rock~ do início dos anos 2000 para fazer uma espécie de mash up em escala real. Juntam as duas identidades sonoras, que apesar da distância no tempo mantêm um diálogo coerente, e disso fazem nascer algo novo: um disco inteiro.


O álbum, batizado também de "FFS", sai em nove de junho, mas dois singles já vieram a público: "Piss Off" e "Johnny Delusional". A lista de faixas também já foi liberada.



Na sequência do lançamento, o supergrupo sai em turnê por alguns festivais europeus, como Glastonbury e a primeira edição do Lollapalooza em Berlim. Torçamos para que o Franz Ferdinand, que é sócio do Brasil devido à incrível marca de nove turnês em oito anos, não demore a voltar trazendo o Sparks na mala.


27 de abr. de 2015

Não, eles não estão à venda no free shop

Acho triste como, em plena era do acesso fácil à informação abundante, a gente às vezes simplesmente negligencia certas coisas. Nunca foi tão fácil e barato ouvir toda e qualquer música de todo e qualquer lugar do mundo e, no entanto, a maioria se limita a ouvir música local e aquela que ainda é jorrada dos Estados Unidos e da Inglaterra. Me incluo nessa; shame on me.

Veja só: precisei viajar até a Colômbia para ouvir um pouco do que se está produzindo de música contemporânea por lá (ok, pra não dizer que estou tão ruim assim lembro que pelo menos o Bomba Stereo eu já conhecia). Na minha viagem para Bogotá, onde fui ao festival Estereo Picnic em missão do meu amado Festivalando, tive a oportunidade de ver ao vivo dois artistas emergentes da cena local.

Na verdade, são dois duos. O La Tostadora é um coletivo audiovisual que faz o que eles denominam de "rayacoco bailador", aquele tipo que é capaz de se acabar de dançar tanto com cumbia, regaetton, quanto com house. Ou seja, um encontro esperto de música eletrônica com elementos populares e folclóricos.



A performance de palco da dupla também entrega essa união de tradição e modernidade. Como é de costume na cena eletrônica hoje, eles se apresentam mascarados. Mas de uma maneira bastante singular, os adereços os transformam em "dois caciques de rave", nos próprios termos da dupla. Por enquanto, o La Tostadora tem um EP no currículo, "Rayacoco Bailador".



A outra dupla é Pedrina y Río (em foto que abre este post), dona de um pop delicado e gracioso, recheado com camadas eletrônicas e guitarra. A primeira música do duo, "Enamorada", foi lançada despretensiosamente no ano passado, sem nenhum artifício promocional, em uma rádio independente de Bogotá, e logo se converteu em hit nacional, daquele tipo que os ouvintes pedem nas rádios. Neste ano sai o primeiro álbum da dupla.

22 de abr. de 2015

Siga Paul Stanley!

Nesta semana, os fãs brasileiros do Kiss poderão ficar mais perto da banda, já que os quatro mascarados estão em turnê pelo país (ontem, 21, em Curitiba; amanhã, 23, em BH; dia 24 em Brasília e dia 26 em São Paulo). Quem pode mai$, além de se aproximar através dos shows, também comprou o pacote de R$ 4 mil que dá direito a uma sessão de Meet and Greet com a banda. Já quem estiver em São Paulo vai poder ficar mais perto ainda do membro mais icônico da banda e sua fiel companheira: Gene Simmons e sua língua estarão na Livraria Cultura, em São Paulo, no sábado (25), para o lançamento do livro do baixista, "Eu, S.A. – Construa um exército de um homem só, liberte seu deus interior (do rock) e vença na vida e nos negócios " (ed. Rocco).

Mas é possível ficar perto de outro membro da banda independente de shows, pacotes caríssimos ou sessões de autógrafos - entenda apenas que o conceito de "perto", neste caso, pode ser também um encurtador de distâncias propiciado pela internet. É Paul Stanley. Vejo o vocalista do Kiss todos os dias. Na minha timeline do Twitter. E é um dos perfis mais legais que sigo: ativo, espontâneo, descontraído, interativo, tudo muito com um clima de vida real - o que cria essa sensação de proximidade.

Há mais de um ano seguindo Paul no Twitter, tenho a sensação de que ele é aquele vizinho que, apesar de não ter nenhuma relação especial comigo, tem pinta de gente fina, me desperta simpatia e está aí, todos os dias, cruzando meu cotidiano em algum momento. O Starchild é do tipo que tira foto de comida, tira sarro dos looks  da Semana de Moda de Nova York e comenta sobre os treinos que faz na academia. Tem dias que ele acompanha a esposa na aula de yoga. Depois os dois vão fazer um lanche no Starbucks. Faz parte do estilo de vida atual do artista, dinâmico, pra cima, otimista. Até hashtag que evoca isso ele criou: #LiveToWin. Muito recorrente na timeline de Paul, sempre vem acompanhada de tweets e imagens motivacionais.


Como ele é esse cara gente fina, separa tempo para dar atenção a quem tanto lhe requisita: os fãs. Eventualmente ele abre sessões de perguntas e respostas com os fãs - por conta própria, quando dá na telha, por tempo indeterminado, sem assessores interferindo ou ditando as regras ou sem a intenção de promover algo do seu trabalho. Responde de tudo: desde fãs brasileiros perguntando sobre a turnê no país até um fã que estava em dúvida sobre qual o melhor vinho que deveria comprar. Aos sábados, especificamente, é dia de ativar sua outra hashtag: #StarchildSatyrday, quando posta (e elogia absolutamente todas) as fotos de fãs caracterizados com a maquiagem do seu personagem no Kiss, o referido Starchild, de face branca e estrela negra no olho direito.


Mas Paul também é um astro do rock e não se esquece disso no Twitter. A parte mais interessante é que ele faz isso com um entusiasmo de um músico iniciante, daquele tipo que ainda se empolga com as primeiras entrevistas e batalha para divulgar cada show na sua agenda. Paul posta fotos de bastidores de entrevistas, selfies no camarim e na chegada ao aeroporto, convoca o público para cada show do Kiss e logo em seguida agradece a todos aqueles que compareceram à apresentação. Ele faz parecer como se para ele tudo ainda fosse tão encantador como da primeira vez. Poderia ter assessores que fizessem o mesmo tipo de divulgação de maneira burocrática, mas faz por conta própria, do seu jeito e com muita disposição.


A propósito, Gene Simmons também está no Twitter, tem quase quatro vezes mais seguidores que Paul, mas seu perfil segue mais essa linha burocrática-divulgação-de-agenda que mencionei acima. Não tenho dúvidas de qual grupo de seguidores se sente mais próximo do ídolo.

E que fique claro: não sou fã do Kiss, a banda nunca me marcou ou fez parte da minha história, apesar de eu ser capaz de entender o papel específico que eles desempenharam no showbiz. Ouvi a banda como caminho natural de quem ouve rock - simplesmente é preciso ouvir os clássicos. Pra você ver como Paul Stanley consegue ser uma figura extremamente simpática no Twitter. Conquiata até quem não é fã. Segue lá: @PaulStanleyLive.


20 de abr. de 2015

Moço, você é feminista

Era o segundo dia de Lollapalooza Brasil, domingo, 29 de março. No meio da tarde, quando começava a garoar no Autódromo de Interlagos e o Interpol subia ao palco à luz do dia, num contraste incômodo com a natureza dark light de sua música, recebi a notícia de que teria cinco minutos de entrevista com o DJ Steve Aoki. Seria às 20h20, 25 minutos antes de seu show.

Me preparei para a entrevista e fui ver o que ainda restava do show do Interpol. Bolei cinco perguntas, ainda que a recomendação tenha sido que eu fizesse apenas três. Algumas eram curinga, para render assunto no caso dele ser um cara de poucas palavras. Tinha as obrigatórias - sobre a segunda parte de "Neon Future", álbum que será lançado no próximo 12 de maio. E tinha uma que eu faria a qualquer custo, e tinha pensado em engatar logo depois que ele comentasse algo sobre o novo trabalho.

Pesquisando, descobri que Steve tem uma graduação em estudos de gênero. Isso é lindo. Fiz disciplinas eletivas sobre o assunto no curso de Antropologia da UFMG, e uma das queixas do meu professor e dos autores que a gente lia era justamente em relação ao baixo envolvimento dos homens na discussão acadêmica sobre o tema (e quem dera se o problema fosse só dentro da academia). É mais lindo ainda porque estamos num momento bem peculiar no qual o feminismo entrou para o vocabulário da música pop, o que eu acho ótimo. Só que, reforçando a observação anterior, temos presenciado, em sua maioria, as mulheres apenas se posicionando sobre a questão: a rainha-diva-mãe-maior Beyoncé, a fofucha da Taylor Swift, as lelekas Rihanna e Miley e, por aqui no Brasil, Pitty com toda sua elegante eloquência. Steve é um membro muito bem vindo no clube, para mostrar que essa não é só uma questão de interesse para as Luluzinhas.

Às 20h, vinte minutos antes do horário marcado, fui avisada de que a entrevista havia sido cancelada. Steve estava finalizando uma sessão de fotos para a Vogue. Logo em seguida faria um show disputadíssimo no Palco Perry, com direito à segurança impedindo o público de entrar na tenda sob risco de super lotação.

Não fiz a pergunta que tanto queria para Steve: o que levou a escolher essa campo de estudos. Mas perguntei pro Google e descobri que ele se auto-declara feminista e não entende porque ainda há caras que acham estranho um homem dizer isso. Já temos um novo ponto de partida pra conversa quando rolar uma nova oportunidade de entrevista.

17 de abr. de 2015

Eu tenho sido uma moça tão rodada nos últimos tempos que rodei, rodei e fui para muito longe deste blog. Na foto, eu rodando no Chile, depois de rodar na Colômbia e antes do Paraguai 

Não tá fácil pra ninguém, muito menos pra este blog, que ficou parado lá em 2014. É que a dona dele anda atarefadíssima com a última cria, o Festivalando, projeto de turismo musical sobre o qual já falei aqui algumas vezes. Me sinto muito mal por isso, porque aqui é o meu playground maior, mas o Festivalando realmente precisa muito de mim neste momento e vai precisar por muito mais tempo. Amém.

Mesmo assim, vou me esforçar para manter alguma regularidade aqui, ainda que a periodicidade não seja das melhores. Para começar, vou reproduzir aqui um texto de minha autoria que fiz originalmente para o Papo de Homem um tempo depois da viagem de dois meses na qual o Festivalando foi parido. Ajuda a entender como ele e as experiências advindas dele invadiram minha vida de um jeito inescapável. Stay tuned!

O que aprendi viajando para festivais de música

Roskilde Festival, Dinamarca, julho de 2014. No acampamento, onde festas improvisadas se sucedem num contínuo temporal, um grupo de rapazes canta, dança e bebe umas cervejas do lado de fora da barraca. A alguns passos dali, atrás de uma barraca vizinha, um cara vira-se de costas, abre o zíper da calça e faz xixi. Uma menina se aproxima, fica do lado do cara, agacha-se, abaixa a calça e faz xixi. A festinha continua ao mesmo tempo em que alguns dormem nas barracas e outros circulam pelo acampamento. Enquanto isso, um menino, duas meninas e outro menino repetem a cena do xixi no mesmo local, sem alterar o curso festeiro.

Para os dinamarqueses, parece não importar muito quem está abaixando as calças para fazer xixi no matinho. Mas importava pra mim e pra Gra, amiga e companheira na travessia por sete festivais de música na Europa nos dois meses que se seguiriam. A jornada ainda ganharia lá no final, na Hungria, uma terceira mosqueteira, a Paula, para completar o trio de moças obsessivas-compulsivas por shows que se conheceram na faculdade de Comunicação.

Ali no Roskilde, onde presenciamos a cena em questão durante uma das muitas festas que acontecem no acampamento, dávamos o pontapé inicial na jornada de festivais e também ao Festivalando. Quem? Em sua forma concreta, Festivalando é o site que a gente transformou em bagagem para guardar os "causos" (somos mineiras!), experiências e memórias desses festivais, assim como lugares e pessoas que conhecemos e ainda pretendemos conhecer. Em sua forma abstrata, é a vontade de retomar o fôlego na vida e fazer o que a gente gosta do jeito que a gente quer: escrever, contar histórias, ir a shows, viajar. Tudo isso sem medo de escorregar na água derramada depois daquele chute básico no balde (alguns empregos foram abandonados nessa história).

Quando deixamos o Brasil atrás de um alívio para nossa fissura por shows e de experiências em terra estrangeira para contar no nosso site, não imaginávamos que ver meninos e meninas abaixando as calças lado a lado para atender à simples e natural necessidade de aliviar a bexiga seria uma das histórias que ficariam na nossa memória.

Entre perrengues com dinheiro, comida e banheiro (porque existem perrengues nos festivais europeus também, ainda que em menor grau); shows bons e ruins e episódios isolados como esse de Roskilde, nos festivais eu acabei vivendo de forma muito mais aguda aquele inevitável deslocamento cultural que vem de brinde com o deslocamento físico de uma viagem.

Passar dias e às vezes uma semana inteira indo a um mesmo festival me fez ver dinamarqueses, suecos, suíços, alemães, tchecos e húngaros pintando cenas comuns de seu dia e dia e de sua cultura com tintas mais carregadas. "Culpa" do natural clima de oba-oba, extroversão exacerbada e às vezes um quase desbunde que insiste em impregnar a atmosfera de festivais, mas que não se encontra nos roteiros turísticos tradicionais. Um sentimento cultivado e evocado pela mítica aura de liberdade e liberação herdada, consciente ou inconscientemente do mais mítico e arquétipo de todos os festivais, aquele lá de 1969 – o Woodstock.

Arte: equipe Papo de Homem

É claro que dinamarqueses e dinamarquesas não fazem xixi na rua uns do lado dos outros; existem banheiros separadinhos para cada um. Mas em uma região como a Escandinávia, onde a bandeira da igualdade de gênero é uma política levada a sério pelo Estado e com resultados efetivos (tinha até mulher narrando a final da Copa na TV, gente), a cena das moças e rapazes juntos no matinho sem serem incomodados ou questionados por ninguém é uma amostra desse quadro em sua versão, digamos, mais exagerada e libertina, como pede o clima de festival. O mesmo vale para a outra ponta do extremo, na República Tcheca, no Brutal Assault, festival de heavy metal, quando eu e Gra tivemos que lidar com assédios constantes e infantis de marmanjos que chegaram a tentar fotografar nossas bundas. Uma reprise exagerada e abobalhada dos gracejos que ouvimos nas ruas de Praga, direcionadas a nós mesmas ou a outras moças, muitas com cara de turistas.

Lá na Alemanha, quando passei um fim de semana no Resist to Exist – festival de punk, hard core e ska –, vi que o casal de punks debochados que seguravam um pedaço de papelão com os dizeres "Beer and Weed" (cerveja e maconha) em meio aos restos do muro de Berlim posicionados na Potsdamer Platz não eram só peça decorativa. Sempre há algo por trás da paisagem turística.

Concentrando uma amostragem na casa dos milhares da população punk que ainda resiste em Berlim, o festival me revelou algumas das diferentes razões dessa resistência e, meio sem querer, algumas sutis desigualdades. Como o menino que penou para me dizer em um inglês meio tabajara que se identificou com o punk diante da dificuldade de conseguir um emprego ou o estudante universitário que mora com a família e disse se identificar com as bandeiras políticas do movimento depois da gente ter uma conversa pseudointelectual e comparativa sobre as pegadinhas do alemão e de línguas neolatinas, como o francês. Foi também no festival que ouvi, durante os shows e no meio do público, os gritos mais altos contra o neonazismo, que hoje é uma assombração institucionalizada na figura do Partido Nacional Democrático (NPD), que propaga seus ideais neonazistas com representação no legislativo alemão em dois de 16 estados.

Discurso forte anti-nazismo em festival punk de Berlim

E eu, que só queria ver uns shows em lugares por onde ainda não havia passado e fugir do marasmo profissional que me perturbava já alguns anos, voltei para o Brasil sem o emprego que deixei para trás, com nove quilos de excesso de bagagem que me custaram 40 euros e mais uma bagagem na cabeça que vale mais que todos os euros que eu gastei em dois meses e que não pesa nem um décimo do medo que foi deixar para trás um emprego estável.

O Festivalando virou um projeto profissional em potencial, com todo o entusiasmo e energia que eu procurava há algum tempo e que uma ideia nova e promissora naturalmente tem. A peregrinação por festivais foi um encontro inesperado com alguns dos hábitos, valores e comportamentos de jovens como eu nos países por onde passamos, e que não se repetiu nos passeios que fiz por pontos turísticos tradicionais, tão cheios de gente de todo lugar do mundo, mas tão vazios de quem vive e faz o dia-a-dia e a cultura daquele lugar (isso não é um desprezo pelo turismo padrão. Trago comigo também boas recordações da turistagem no muro de Berlim e no Cassino de Montreux, por que não?).

Não imaginava que a vontade de ver os Stones no Roskilde Festival me levaria, sem querer, a ver como homens e mulheres enxergam uns aos outros na Dinamarca, naquela reveladora e anedótica cena do xixi lá do início do texto. Ou que a oportunidade de ir a um festival em Berlim para voltar a ouvir o punk rock que tanto escutei na adolescência me mostraria como há uma camada da população, principalmente jovem, consciente e temerosa dos riscos de uma nova onda conservadora (alguma semelhança com esse Brasil pré e pós eleitoral?). A gente quer explorar ainda mais esse recém-descoberto portal de experiências, e já temos outros cantos do mundo na mira das próximas viagens: Nepal, Japão, Colômbia, Estados Unidos.

Festivais de música:  eventos que aqui e lá apostam tanto numa tal de experiência e seguem se esforçando para entregar ao público ~experiências únicas~ em forma de lounges patrocinados e de uma alegria jovial e descolada pré-fabricada por departamentos de marketing e produção. Mal desconfiam que as experiências já estão prontinhas para acontecer, em qualquer lugar - no palco, claro, no meio do público e até atrás da moita.

27 de dez. de 2014

Charlie XCX sabe se dar prazer melhor que aquele cara mais ou menos e ainda canta sobre isso. Deusa.

Quando Beyoncé surgiu no palco do Video Music Awards à frente de um telão com a palavra "feminista" em letras garrafais, em agosto, não estava só se posicionando positivamente em relação ao tema. Meio sem querer, acabou resumindo o que havia sido (e ainda seria) parte da pauta do pop em 2014. Taylor Swift finalmente percebeu que era uma feminista, Miley Cyrus reafirmou ser uma e ainda sobrou tempo para, aqui no Brasil, Pitty e Anitta protagonizarem um necessário debate sobre a liberdade sexual das mulheres (fora da música ainda teve o discurso de Emma Watson na ONU e todo o bafafá em torno do livro de Lena Dunham, Não Sou Uma Dessas).

Claro, o assunto não ficou só no nível das declarações e virou música também. O hit que colocou uma das vertentes do tema em debate pode ter sido "All About That Bass", de Meghan Trainor (um debate que ficou entre o acerto de incentivar a auto-aceitação do corpo e o equívoco de atacar outros tipos físicos para atingir essa aceitação), mas não foi essa a única música que tratou de questões feministas neste ano. Elas não escalaram as paradas de sucesso nem ganharam os mesmos holofotes e manchetes que o show de Beyoncé e a conversa de Pitty e Anitta, mas ainda dá tempo de você ouví-las:

O ano começou com "Go Forth, Feminist Warriors", uma espécie de versão feminista e mais hipster de "We Are The World" uma vez que reúne um grupo de mais de vinte vozes para tratar das diferentes lutas que as mulheres têm (ainda) que encarar. A comparação com o clássico beneficente capitaneado por Michael Jackson vem de uma das mentoras da gravação, a jovem Tavi Gevison, editora da Rookie, publicação online voltada para o público feminino.

A autoria é de Katy Davidson, nome por trás do projeto Key Losers. Nos vocais: Katie Crutchfield, MNDR, Kate Nash, Kimya Dawson, Suzy X., Tavi Gevinson, Katy Davidson, Marianna Ritchey, Geneviève Castrée, Thao Nguyen, Storey Littleton, Tegan and Sara, Dee Dee Penny (Dum Dum Girls), Ted Leo, Aimee Mann, Psalm One e Carrie Brownstein.

As moças cantam versos como "They mansplain every night and day/ But they can't mansplain our freedom away". "Mansplain" é um verbo fruto do neologismo e que, por isso, ainda não tem tradução direta para o português, mas pode ser entendido como a imposição da visão masculina para explicar uma determinada questão. Talvez algo como "eles impõem sua visão de mundo noite e dia, mas não vão impor a minha liberdade".




Em maio, a rapper norte-americana Sizzy Rocket fez uma espécie de revisão histórica ao reescrever os versos de "Girls", dos Beatie Boys, incontestavelmente um dos clássicos do trio nos anos 1980, mas também uma ode ao sexismo dados versos como "Girls - to do the dishes/Girls - to clean up my room/Girls - to do the laundry" (Garotas - pra lavar a louça/ Garotas - para limpar meu quarto/ Garotas - para lavar roupas).

A música já havia sido retrabalhada em favor das moças no fim de 2013, quando uma fabricante de brinquedos norte-americana usou uma paródia da letra para promover seus brinquedos, todos intencionalmente voltados para desenvolver em meninas o interesse por ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Sizzy deu mais um passo à frente e reescreveu os versos de modo a criar uma versão que fortalecesse jovens garotas, segundo a própria. Ela canta: "They have no idea / the pressure that we have to feel / be skinny / be pretty / have sex appeal / bend over / give it to me like you want a record deal" (Eles não têm a ideia da pressão que sofremos. Seja magra, seja bonita, seja sensual, se curve e se entregue a mim já que você quer um contrato assinado).




Ainda em meados do ano, o quarteto de Seattle Tacocat usou ironia na música "Hey Girl" para esbravejar contra o assédio nosso de cada dia que as mulheres sofremos ao andar pelas ruas, como bem mostraram o viral da moça que recebeu mais de 100 cantadas em 10 horas de caminhada pelas ruas de Nova York e o projeto Chega de Fiu-Fiu. Um bônus-track das moças de Seattle que também merece ser ouvido é a faixa "Crimson Wave", um convite bem humorado à aceitação positiva da menstruação.




Quase aos 45min do segundo tempo, a inglesa Charlie XCX fecha bem a lista com a faixa "Body of My Own", presente em "Sucker", álbum lançado agora em dezembro. A nova música ajuda a ampliar a coletânea de temas pop dedicados à masturbação feminina e ainda afirma com todas as letras: ele sente muito mais prazer sozinha do que com aquele cara mais ou menos.


26 de nov. de 2014

Vem cá que eu vou te explicar a teoria da matemática McCartneyana

Quem viu Paul McCartney em Belo Horizonte no ano passado e não conseguiu repetir a dose no retorno do beatle ao Brasil neste mês pode ficar tranquilo. Com a exceção da ausência do "uai" em seu palavreado e da inclusão de músicas do seu mais recente álbum "New", lançado após o show no Mineirão, não houve quase nada de diferente no show que o músico fez no Allianz Parque, em São Paulo, nessa terça (24).

McCartney é a constante da música pop que permanece inalterada há cinco décadas mesmo com o surgimento de novas fórmulas de sucesso e de se fazer música. Em sua equação que faz de seus shows elementos invariáveis, há precisão que ameaça ser burocrática, mas uma combinação de elementos que indica conhecimento e domínio de gênio sobre a matéria.

A frase "nesta noite vou falar um pouquinho de português" é dita desde 2010 aqui no Brasil logo antes de "All My Loving", sempre a terceira música da noite, e surpreende mais quem a ouve na boca do beatle pela primeira vez (Paul veio ao Brasil em todos os anos desde 2010 e já soma 16 shows no período, em quatro regiões - apenas o norte ainda não recebeu o músico).

Por outro lado, mesmo repetitivas, não perdem o impacto a explosão de emoção na passagem do solo de ukelele para as guitarras em "Something", a sequência quase épica de clássicos em "Live and Let Die"/"Let it Be"/"Hey Jude" ou o dedilhado de violão em "Yesterday".  

As variáveis ficam por conta do que acontece fora do domínio do Sir. Na noite dessa terça, em São Paulo, ficaram a cargo da chuva incessante antes e durante o show, do som mal equalizado em alguns momentos e de uma falha repentina em um dos telões, que ficou totalmente apagado por alguns segundos.

E se Paul é uma constante, assim também o são seus efeitos sobre o público. Turnê após turnê, repetem-se as mesmas cenas: pais, filhos e netos unindo três gerações na plateia, estádios lotados cantando clássicos do século XX em coro, elogios à sua boa forma do alto de seus 72 anos e ao seu carisma.

Difícil distinguir quem reage assim porque acabou de descobrir a fórmula de quem reage dessa forma porque já a conhece e a compreende. Em ambos os casos, o resultado é um só: é uma fórmula ainda incontestável na ciência do pop.

*Originalmente publicado no portal O TEMPO.

4 de nov. de 2014

Chico Buarque lança em 14 de novembro o romance "O Irmão Alemão" (Companhia das Letras), cuja trama é "uma busca pela verdade e os afetos", segundo a misteriosa divulgação feita pela editora - além da sinopse econômica, foi divulgado também um vídeo no qual o autor lê um trecho do livro, o sétimo da carreira de Chico como compositor. Potencialmente um dos lançamentos literários mais badalados de 2014 no Brasil, este não é, porém, o único que envolve músicos atravessando a fronteira da literatura. Estreantes ou razoavelmente veteranos nas letras, outros compositores brasileiros também lançaram livros este ano. Veja:



Tony Bellotto e Bellini e o Labirinto (Companhia das Letras, 280 págs.)
Nono livro do guitarrista dos Titãs e quarto com o protagonista do título, Bellini e o Labirinto traz de volta o detetive particular fã de blues e morador de um apartamento na avenida Paulista. Desta vez, Bellini viajará a Goiânia para negociar com os sequestradores do milionário Brandãozinho, atendendo a pedido de Marlon, parte da famosíssima dupla sertaneja Marlon & Brandão.


Rita Lee e Storynhas (Companhia das Letras, 96 págs.)
Com ilustrações de Laerte, o livro é uma coletânea das micro-narrativas criadas por Rita Lee no Twitter desde 2010, quando a compositora aderiu à rede social. Organizadas para atender ao formato do livro, as histórias ganharam títulos, mas mantiveram a grafia original das mensagens de 140 caracteres, com abreviações, por exemplo.


Vitor Ramil e A Primavera da Pontuação (Cosac Naify, 192 págs.)
O músico gaúcho Vitor Ramil traz referências das manifestações ocorridas no Brasil em junho de 2013 para seu terceiro romance, A Primavera da Pontuação. Com traços de fábula e alegoria, a história transforma sinais ortográficos e regras gramaticais nos personagens da história. Tudo começa quando uma palavra-caminhão carregada de letras garrafais atropela um ponto e foge sem prestar socorro. A pontuação de Ponto Alegre se revolta e protagniza enfrentamentos com o governante, o Regente com problemas de regência, a Passiva, polícia secreta do Estado e os radicais Grego e Latino.


Pitty e Cronografia: uma trajetória em fotos (Edições Ideal, 160 págs.)
O primeiro livro da carreira de Pitty é uma biografia fotográfica da baiana entremeada por textos escritos pela própria artista. Partindo de sua infância, o livro segue para o resgate do início de sua carreira musical nas bandas Inkoma e Shes, relembra a consagração no início dos anos 2000 e abre espaço para o projeto paralelo Agridoce.


Thedy Corrêa e Noite Ilustrada (Belas-Letras, 131 págs.)
O vocalista do Nenhum de Nós lança seu segundo livro de poemas, que gira em torno da insônia e das longas madrugadas encaradas pelo artista em função dos shows com sua banda. O tango como trilha sonora das noites em claro, especulações sobre a insônia de Paul McCartney e a última noite de Natal com os pais são a matéria-prima para alguns dos versos.


Tico Santa Cruz e Pólvora (Belas-Letras, 168 págs.)
Pólvora é o terceiro livro de Tico Santa Cruz e a primeira incursão na ficção. O romance policial parte das incursões criminosas de uma dupla de jovens para fazer uma crítica caricata à realidade política, social e econômica do Brasil.

*Texto escrito para o Brasil Post
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