9 de out de 2011

Em pouco mais e um mês, em 29 de novembro, completam-se dez anos da morte do ex-beatle George Harrison, vítima de um câncer de pulmão. De maneira bastante estratégica, como exige este tipo de efeméride, é lançado hoje (10) em todo o mundo, depois de cinco anos de produção, o DVD de "Living in the Material World", documentário de Martin Scorsese sobre o guitarrista da banda inglesa que dispensa apresentações.

Lançamentos resultantes de celebrações de datas como essa costumam mobilizar mais os fãs, mas a cinebiografia que Scorsese acaba de entregar pode servir como uma bela carta de apresentação de George para quem conheceu os Beatles pegando carona apenas no mito em torno da banda, que muitas vezes faz da incontestável parceria Lennon/McCartney uma injusta sombra sobre a outra metade da banda. Ainda que muito rapidamente, o caçula dos Beatles é apresentado em sua infância e adolescência. Costurando depoimentos, Scorsese mostra como o garoto que garantiu sua vaga na banda graças à habilidade com a guitarra poderia ser hoje, para o senso comum, um compositor tão emblemático como John e Paul, mas não o se tornou porque seus dois parceiros pouco davam espaço para suas composições nos álbuns dos Beatles.

Aos beatlemaníacos, que inevitavelmente acompanharão histórias mais que conhecidas - o triângulo amoroso com Pattie Boyd e Eric Clapton, por exemplo - ficam reservados depoimentos mais pessoais do filho Dhani e da esposa Olivia, dos ex-companheiros Paul e Ringo (que chega a derramar lágrimas em determinado momento) e um tesouro: trechos do diário pessoal de George lidos por Dhani. Em um deles, o guitarrista descreve o dia em que deixou os Beatles.

O ídolo pop, porém, não é o foco maior do documentário. "Living in the Material World" (Vivendo no mundo material, em tradução livre) trata acima de tudo do garoto pobre, calmo e de olhar compenetrado que encontrou na fama, riqueza e reconhecimento trazidos pelos Beatles o ponto de partida para se transformar em uma pessoa de espiritualidade madura (elevada, diriam alguns), superior às frustrações e glórias de sua famosa banda e às dores e traumas provocadas pelo câncer e por um atentado sofrido em 1999, quando um maníaco invadiu sua casa e tentou matá-lo a facadas. Na música e filosofia indianas, como explora bem o filme, George encontrou o caminho para lidar com o mundo material.

As três horas e meia do documentário exigem um pouco de fôlego dos menos dispostos e menos curiosos, mas o ritmo da edição de Scorsese, que intercala depoimentos, imagens de arquivo pessoal e fotos raras dos primórdios dos Beatles facilitam o envolvimento com o filme. A recompensa ao final da maratona é descobrir, ou reforçar, que ao lado do carisma que Paul exala até hoje e da lenda que John virou por seu ativismo e cruel assassinato, esteve George com sua grandiosidade particular.



*Este texto também foi publicado no blog #ficaadica, do Jornal Pampulha

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