28 de set de 2011


"E meteu-se com eles (os índios) a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita". O trecho da carta de Pero Vaz de Caminha indica que a gaita, instrumento central da música celta, está no Brasil desde o seu descobrimento. Mais que um item qualquer da comitiva de Cabral, a gaita e toda essa tradição musical de origens medievais chegou e aqui ficou, fixando raízes na formação musical do Brasil. É o que vai mostrar o gaitista espanhol Carlos Núñez, em show no Teatro Dom Silvério na quinta-feira (29).

Natural da região da Galícia, um dos berços da música celta assim como a Irlanda, Escócia e algumas regiões de Portugal, o gaitista apresenta em sua turnê brasileira repertório de seus 20 anos de carreira com destaque para as faixas do disco "Alborada do Brasil".

O álbum, lançado em 2009, e com participações de Milton Nascimento, Fernanda Takai, Carlinhos Brown e Lenine, é resultado de pesquisa realizada ao longo de três anos por Carlos no Brasil, na qual o músico buscou identificar os elos entre a tradição musical celta e brasileira. "O Brasil guarda o tipo de escala da música celta e mantém vivos instrumentos que desapareceram na música europeia medieval, como a rabeca e a viola caipira. No Brasil isso é modernizado porque vocês estão continuamente misturando", explica Carlos.

Em suas viagens pelas cinco regiões do país, notou como o acordeon desempenha na música brasileira papel semelhante ao da gaita na musicalidade celta. Também encontrou gaitistas em Pernambuco e Minas, onde também descobriu uma relação ainda mais estreita com o outro lado do Atlântico. "Minas é a Galícia do Brasil. Por causa da febre do ouro, a cultura galega chegou a Minas pelos portugueses. Dizem que mineiro come quieto. É a mesma filosofia que existe em relação aos galegos na Espanha", compara o músico, segundo quem o amigo Milton Nascimento teve a mesma percepção quando esteve na Espanha. "O Milton me confessou que o Caminho de Santiago lembra muito o universo mineiro", diz.

Além do disco com cantores brasileiros, Carlos produziu em parceria com José Miguel Wisnik a trilha sonora do mais recente espetáculo do Grupo Corpo, "Sem Mim". O embrião do novo balé foi um conjunto de sete composições datadas do século XIII e de autoria do trovador Martín Codax, nascido na Galícia. Na costura entre tradição musical trovadoresca e música popular brasileira feita por Wisnik e Núñez, os versos de Codax, palavras que deixam transparecer a formação da língua portuguesa e espanhola, são interpretados por nomes como Chico Buarque, Milton Nascimento, Rita Ribeiro e Mônica Salmaso.

No Brasil, além dos shows, o músico lançará o documentário "Brasil Somos Nós", registro em filme de sua pesquisa no país. O longa estreia no Festival do Rio, em outubro.

Carlos Núñez
Teatro Dom Silvério (av. Nossa Senhora do Carmo, 230). Quinta-feira (29). Ingressos: R$20 (inteira). 2191-5700.

*Versão ampliada de texto publicado na edição de 24/09 do Jornal Pampulha

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